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Bedelho

Procurei no Aurelião. Bedelho é uma 'tranqueta ou ferrolho de porta, que se levanta por meio de aldrava ou de báscula'. Perfeito. Já sabemos o que é bedelho. Resta saber o que é 'aldrava'

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2019 | 02h00

O que é um “bedelho”? O que estamos, exatamente, fazendo quando metemos nosso bedelho na conversa ou no assunto de outros? Boa coisa não é, pois um bedelho intrometido raramente é bem-vindo. O bedelho é uma opinião que ninguém pediu. Ou pior: soa como algo metálico e agressivo, menos uma contribuição extemporânea para um papo do que o nome de uma arma mortal.

– E esse ferimento no pescoço do morto, inspetor?

– Feito com um bedelho. Certamente um bedelho.

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Procurei no Aurelião mais próximo. Bedelho, diz ele, é uma “tranqueta ou ferrolho de porta, que se levanta por meio de aldrava ou de báscula”. Perfeito. Já sabemos o que é bedelho. Resta saber o que é “aldrava”. Uma visita a um dicionário é sempre um mergulho no fascinante. 

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Você sabe, claro, que “alcateia” é uma turma de lobos e que “cardume” é um bando de peixes. Mas aposto que sabia tanto quanto eu que “panapaná” é o coletivo de borboletas. “Enxame” quer dizer muitas abelhas, certo, e “manada” e “matilha” quem não sabia? Mas “vara” significando uma porção de porcos, quem diria?

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Dicionários e lexicografias nos reservam muitas surpresas. Traduza: uma chusma emanauê com farandeulas com cabidela. Uma reunião de mendigos das mesmas tribos com moedas. (Agora é só esperar a oportunidade de usar essa frase numa conversa, antes que alguém meta seu bedelho.)

Quem se dedica a descobrir as origens e as transformações sofridas pelas palavras através do tempo se diverte sem parar. Como foi que a diferença de gostos entre os delicados franceses e os rudes ingleses determinou que as linguagens das duas culturas se separassem tanto, na cama, na mesa e na vida? Embora uma não reconhecesse a superioridade da outra. Durante muito tempo, até que a prática fosse universalmente tolerada nos dois lados do canal, o homossexualismo foi chamado de “a doença inglesa” pelos franceses e “a doença francesa” pelos ingleses.

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“Fokken” era a palavra em inglês antigo e nada elegante para o ato sexual. Os franceses, embora não lhes faltasse outras palavras, preferiam o eufemismo “fornicate” do latim “fornix”, uma espécie de porão com o teto arqueado alugado por prostitutas de Roma, que acabou virando eufemismo também, “fornax”, depois “fornus”, que significava simplesmente quente.

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Tudo isso foi antes, muito antes, do Brexit.

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