Beckett vira teatro e instalação no Rio

Estréiam nesta sexta-feira uma peça e uma exposição com a proposta de serem as duas coisas ao mesmo tempo. Felizes Para Sempre, em cartaz no Teatro III do CCBB até 1 de outubro, é baseada em textos de Samuel Beckett, o irlandês que foi o maior expoente do teatro do absurdo. Ao todo, são três textos, Dias Felizes, Ir e Vir e Jogo - os três traduzidos por Barbara Heliodora - apresentados em dias diferentes: Dias Felizes é apresentado de sexta a domingo, enquanto os outros dois são encenados às quartas e quintas. A peça ocupa cinco espaços distintos delineando um caminho por onde a platéia passa até chegar ao lugar onde senta. Neste percurso, 22 armários hospitalares compõem uma instalação, em que câmeras fotográficas e de vídeo registram atores e espectadores. Estes só podem assistir à peça deixando-se fotografar, e suas imagens são usadas num painel exposto ao fim do espetáculo. Somente após a passagem de todos pela instalação inicia-se a peça. Os armários são peça chave para entender a peça. Alguns atores passam todo o tempo dentro deles. Há três tipos de armários em cena, todos envidraçados. Aqueles em que a platéia pode interagir medem 70 cm de altura por 35 cm de largura e profundidade. Servem para o espectador pôr a cabeça e lá enxergar ora imagens em vídeo, ora explosões de cor e jogos de espelhos. Os outros são algo como tamanhos médio e grande. Os diretores os definem como roupas para a mente, onde o espectador submete seu olhar a outros olhares, o que dá a impressão de perda do controle da própria imagem. "A peça discute a identidade, que está sempre em movimento", diz Adriano Guimarães, que a dirige com seu irmão, Fernando. "A questão é o que é ser feliz para sempre", diz o diretor, "quando nós fazemos promessas de um futuro sobre o qual não temos controle". O tempo é um ponto comum aos três textos, permeando os personagens e forçando-os a construir suas identidades em seus passados. A memória é a única saída para personagens a quem o tempo corrói e cujas identidades fogem. Em Dias Felizes, Vera Holtz é Winnie, uma mulher que passa o tempo inteiro parada e afundando para dentro de um armário. Ela fala constantemente, mas sem amarrar um sentido para sua fala. Seu marido, Willie, anda sem parar, mas não fala quase nada. Ao fim, Winnie está afundada até o pescoço, despejando palavras de vários discursos simultaneamente. A imobilidade é crescente, e a identidade da personagem cada vez mais múltipla, feita de lembranças variadas. "Beckett é muito forte", diz Vera Holtz, fazendo pela primeira vez uma peça com proposta tão livre. "Ele primeiro te conquista, mas depois te domina", ela diz, referindo-se ao autor de Esperando Godot. Ao mesmo tempo em que declara a vontade da equipe em quebrar noções de espaço, cor e suas relações com o homem, confessa estar partindo do zero. "Estou como o público vai ficar", antecipando um possível estranhamento por parte dos espectadores. O diretor Adriano Guimarães concorda: "Não teremos aqui linearidade, mas o público pode construir uma narrativa sua, para codificar a peça de alguma forma", no que deixa claro que não é a história, e sim as idéias, o principal da montagem exposição. E Vera acrescenta: "o texto é tão simples que se torna difícil de entender". Origem - Uma história curiosa cerca a montagem de Felizes Para Sempre. Dona Maria, avó de Adriano e Fernando Guimarães, faleceu em 1997, tendo contado muito da vida do avô dos diretores para eles, que não chegaram a conhecê-lo. Com a morte da avó, Adriano e Fernando têm acesso, pela primeira vez, a um armário hospitalar, como os que se vê na peça, onde estavam guardados documentos, cartas, diários, diplomas e fotografias. Estes objeto os ajudaram a construir uma imagem do próprio avô, e essa experiência virou uma instalação apoiada em textos de Samuel Beckett. "Tínhamos a certeza de que aqueles objetos de alguma forma nos comunicava nosso avô, mas não queríamos simplesmente falar da nossa memória", diz Adriano, "pois isso restringiria o trabalho apenas a quem o tivesse conhecido". A presença do dramaturgo foi decisiva para transformar um acervo familiar em obra que fala do ser humano. "Beckett deu universalidade à peça, pois ele fala constantemente de identidade, tempo e memória", diz o diretor. No que talvez seja uma simples tentativa de reencontrar o avô, Adriano e Fernando fazem um exercício com o tempo, para o qual convidam a platéia, o que explica todo o aparato de instalação. O CCBB fica na Rua 1º de março, 66. Felizes Para Sempre: quarta e quinta, Ir e Vir e Jogo, às 19h. De sexta a domingo: Dias Felizes, às 19h. Preço: R$10

Agencia Estado,

07 de setembro de 2000 | 01h46

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