Becker tem a cara de seus heróis

Diretor fala de Minhas Tardes com Margueritte, sobre a arte do encontro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2011 | 00h00

Jean Becker é gordo, bonachão, tem a cara de seus personagens. "O que me interessa é contar histórias de pessoas comuns." A entrevista realizou-se na semana passada, em Paris, na sede da Unifrance, em Pigalle. O filme do qual Becker falava é Minhas Tardes com Margueritte, que estreou sexta na cidade. Outro filme recente do diretor chamou-se Encontros com Meu Jardineiro. Becker cultiva a arte do encontro?

"Muitas pessoas preferem a solidão, a contemplação. Eu nasci para descobrir o outro." Filho de Jacques Becker, grande autor francês do pós-guerra (morreu em 1960), Jean se iniciou como assistente do pai. Jacques via nos filmes algo mais que uma janela aberta para a realidade - uma espécie de realismo poético.

Diálogos com Meu Jardineiro conta a história de um pintor que aprende a valorizar as coisas simples da vida com um homem humilde - e isso se reflete na sua arte. Minhas Tardes com Margueritte segue o caminho inverso - Gérard Depardieu faz um cinquentão que, quando garoto, era considerado o ignorante da turma. Ele cresce iletrado, analfabeto. E encontra essa velha dama que desperta nele o amor dos livros.

"Sofro de um problema nos olhos que me provoca canseira, quando leio. É uma ironia cruel. Não gosto que leiam para mim, mas também não leio tanto quanto gostaria. Tenho essa pessoa que busca temas para mim. O livro de Marie Sabine Roger tinha material para um bom filme, ou pelo menos para um desses filmes que gosto de fazer. Mas não teria ido adiante sem a conivência de Gérard (Depardieu). Quando ele me deu seu aval, o filme começou a tomar forma."

O roteiro de Jean-Loup Dabadie foi seguido à risca pela dupla de atores, Depardieu e a veterana Gisèle Casadeus, de mais de 90 anos. O filme ultrapassou 1,2 milhão de espectadores na França. O sucesso poderia ter sido maior. Depardieu também estrela Mamouth, sobre outro bronco, não analfabeto, que estreou simultaneamente. Becker reflete - "É bobagem oferecer filmes tão próximos ao mesmo tempo." Próximos, mas diferentes. Mamouth fez quase 1 milhão de espectadores. Sem a concorrência, Becker talvez tivesse feito 2 milhões. Não é o número, em si, que importa. "O número é só a consequência de chegar aos espectadores. E eu faço filmes para o público."

Qual é o tema? - "É uma coisa que aprendi com meu pai. A cultura e o cinema podem tornar nossas vidas melhores." Ele define o duo Depardieu/Casadeus como um dos prazeres da sua vida de cineasta. "Ambos deram ao filme uma humanidade que superou minha expectativa."

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