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Beber e viver

Amo isso, cada garrafa é uma surpresa. É um ser vivo e tem personalidade

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

24 de setembro de 2017 | 03h00

Sempre achei estranhas duas categorias de pessoas: as que se excedem no álcool e aquelas que nunca o bebem. As primeiras são chatas mesmo, falam muito, babam, choram e dão vexames variados. As segundas são melhores para o convívio, mas parecem lançar um olhar moral para sua bebida. Ninguém é obrigado a beber e muitos não podem fazê-lo por motivos médicos ou tentativa de afastamento do alcoolismo. Compreensível. Porém, beber algo em boa companhia é uma comunhão, um sacramento compartilhado e uma forma de viver uma experiência boa.

Sou um amante de vinhos. Meu pai comprava caixas de vinhos tintos, brancos e rosés na serra gaúcha. Achávamos a cor divertida, mas não nos seduzia. Na juventude tomei vinhos alemães adocicados. Essa é a clássica informação que pode ser usada contra uma pessoa em algum momento da sua carreira. Lá está o ser feliz pretendendo um cargo ou querendo validar uma ideia e pimba, surge uma foto dele com a famigerada garrafa azul. Foi-se todo o projeto de seriedade...

Collor refinou meu gosto. A abertura dos mercados fez com que os vinhos chilenos e argentinos surgissem abundantes e bem mais baratos. Passei a tomar o que eu chamava de vinhos católicos: Santa Helena, Santa Cristina, Santa Carolina, etc. Descobri que conseguia distinguir uvas como cabernet sauvignon, carménère, syrah, etc. Novos destinos e novas videiras: a touriga nacional de Portugal e a Sangiovese da Itália. Uma recaída, mais uma confissão grave: um dia descobri um vinho de estação, o beaujolais nouveau. Geladinho, lá por novembro, era um eco menos doce que o Liebfraumilch, mas ainda era um suco de uva com algo de álcool.

Enólogos já devem estar desistindo de continuar a leitura. Dois pecados mortais confessados e uma estrada semeada de pecados veniais. Calma, vamos conseguir mais.

O gosto se desenvolveu. Creio que é uma trajetória comum a quase toda classe média brasileira. Comprei um Nez du vin e brinquei em festas com ele. Dezenas de cheiros para treinar meu olfato. Errava quase todos. Comecei a colecionar livros. Fiz a primeira enoviagem a Bordeaux. Dos varietais passei a admirar os assemblage. Depois, conheci Mendoza na Argentina e áreas vinícolas do Chile. A última visita foi ao vinhedo Santa Rita, com uma entusiasmada carioca nos levando pela propriedade, mostrando coisas como o sombreiro, a árvore da cortiça ou uma parreira orgânica com galinhas comendo insetos no lugar de defensivos. 

Há os traços exóticos: a descoberta de uma boa bebida da Suíça, um excelente turco, um curioso vinho grego. Houve o excesso de açúcar de um Tokai húngaro e aqueles momentos de uma bebida perfeita, num momento perfeito com a companhia perfeita. Mas aqui interrompo a memória da gula evitando entrar na luxúria para não sobrecarregar a crônica em um santo domingo. 

Comprei mais livros. Comecei a participar de uma experiência interessante: dar palestras sobre História da Borgonha, por exemplo, acompanhado de um sommelier que explicava e servia um vinho borguinhão. As aulas melhoravam a cada rolha extraída. 

A biblioteca cresceu e meu conhecimento também. Cheguei a falar na ABS, Associação Brasileira de Sommeliers. Tratei da história do vinho e não sobre o vinho em si. Sempre admirei o especialista que sente no paladar a musgosa face norte do Montblanc no arrebol.

A vida é curta para tomar vinhos ruins, afirmam. Beber desnuda nossa alma. Quem não viu deve aproveitar para contemplar a Festa de Babette (Gabriel Axel, 1987), filme em que austeros protestantes descobrem a alegria comendo e bebendo. 

Por ligação profissional com algumas pessoas muito poderosas, vim a provar cálices do olimpo enológico. Serviram-me garrafas de mais de dez mil dólares. Considerei um desperdício. Apesar do encantamento, minha sensibilidade distingue bem o vinho ordinário do médio e este, do bom. Percebo quando o vinho é muito bom. Porém, os vinhos excepcionais são estranhos ao meu paladar. Eu não separo o muito bom do excepcional. 

Conheci gente muito boa na área, como Manoel Beato. Ainda lembro do primeiro vinho que ele indicou: um Castelli di Jesi (sim, eu ganhava menos há 25 anos). 

Diz uma tradição que uma princesa deprimida em um harém oriental desejou suicidar-se. O tédio era insuportável. Esmagou frutas em uma jarra e deixou que ficassem lá para, no anseio dela, transmutarem-se em veneno. Tudo fermentou e ela bebeu com intenções deletérias. Não morreu, mas experimentou um vinho. Descobriu a alegria e superou o impulso suicida. Talvez não fosse o vinho que a fez redescobrir o riso, mas a capacidade de se entregar. 

Quando quero trabalhar pego um chá preto, verde ou branco. O chá foca. Quando estou livre, encho uma taça de vinho. Vario muito, mas dominantemente são franceses, chilenos, argentinos, sul-africanos, neozelandeses ou portugueses e espumantes do meu Estado natal. Vou bebendo aos poucos e descubro o mesmo remédio da princesa. A alegria me invade e eu me entrego ao devaneio. Nunca fiquei bêbado, mas existem regiões quase infinitas entre o ébrio e o sóbrio. Sozinho ou acompanhado, o vinho dialoga e vive com alma. Amo isso, cada garrafa é uma surpresa. É um ser vivo e tem personalidade. Uma taça é um ponto para ver o mundo. Tim-tim: bom domingo para todos nós.

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