Bebel em NY, melhor esquecer

Princesa da bossa errou letra em espetáculo monótono cujo ponto alto foram goles de champanhe

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2011 | 00h00

O programa da série American Songbook, promovida pelo Lincoln Center, dizia que Bebel Gilberto era capaz de trazer a bossa nova para o século 21. No show realizado quinta no Allen Room, um dos palcos do Jazz at Lincoln Center, Bebel não mostrou nenhuma inovação: ela fez de novo o papel de si mesma. Isso é bom e pode ser divertido para quem gosta. Existe um público cativo para o jeito de Bebel ser no palco. Mas há quem acredite que "a princesa da bossa nova" é a melhor representante da música brasileira nos EUA?

O show ocorreu em um palco cujo fundo envidraçado oferece uma vista estonteante do Sul do Central Park. A promessa era Bebel cantar as músicas do seu último disco, All in One (2009), indicado para o Grammy. Somente duas composições daquele álbum foram apresentadas: All in One (Bebel Gilberto/Cesar Mendes) e Sun Is Shining (Bob Marley). Bebel começou com É d"Oxum (Gerônimo). A casa quase lotada poderia ter percebido a primeira música como um mau prenúncio. Bebel errou bastante a letra - só não trocou o nome do orixá. Dali em diante, porém, ela se embaralhou apenas uma vez com o conteúdo das composições.

Bebel não presta atenção no que canta - a interpretação é monótona. A falta de empatia era amenizada quando ela puxava palmas. As piadas não ajudaram a criar intimidade com o público. No meio da apresentação, Bebel perguntou se havia na plateia gente que falava português. "Poucos? Pois eu prefiro assim. Na minha cidade só se fala inglês. Mas para quem não fala inglês... Quer dizer... Para quem fala inglês e português, quer dizer, para todo mundo aqui eu vou cantar uma música legal."

A música legal era So Nice (Marcos Valle/Norman Gimbel/Paulo Sérgio Valle), a versão para o inglês de Samba de Verão, uma das mais aplaudidas do show. Os melhores momentos foram a interpretação de Acabou Chorare (Galvão/Moraes Moreira) e de Bananeira (Gilberto Gil/João Donato). A cantora estava mais solta após receber a taça de champanhe pela qual reclamou entre a terceira, Simplesmente (Bebel Gilberto/Didi Gutman/Marius de Vries), e a quarta música, Sun Is Shining. Na mesma oportunidade, ela se queixou do retorno baixo e da luz forte.

Sintomático, um dos momentos mais exultados pelo público foi o primeiro gole da bebida. As interpretações alternaram português e inglês. Depois de cantar Baby (Caetano Veloso), Bebel passou batom. Àquela altura, era difícil entender o que ela falava e, por vezes, o seu canto era abafado.

A banda que acompanhou Bebel era formada por Guilherme Monteiro (violão), Masaharu Shimizu (baixo e violão), Carlos Darci (trombone), John Roggie (teclado), Kenny Wollesen (bateria) e Valtinho Anastacio (percussão). Em Samba da Bênção (Baden Powell/Vinicius de Moraes), o grupo atuou sobre uma base pré-gravada.

A performance seguiu com Aganjú (Carlinhos Brown) e Night and Day (Cole Porter). Entre essas músicas estava programada Preciso Dizer que Te Amo (Bebel Gilberto/Cazuza/Dé), suprimida do show porque Bebel alegou - ninguém sabe se é brincadeira - que ia encurtar a apresentação para ir ao banheiro, muito longe do palco.

No bis, Tanto Tempo (Bebel Gilberto/Suba), ela tomou mais um gole do champanhe, passou outra vez o batom e dançou à la Rita Cadillac. Bebel terminou o show deitada no chão. De olhos fechados e pernas cruzadas.

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