Paulo Vitor/AE
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Beatriz Segall, mãe (quase) terna

Você liga a TV em Vale Tudo e vê Beatriz Segall com as sobrancelhas arqueadas da autoritária Odete Roitman. Ela esmaga os filhos, dos quais cobra firmeza e ambição. Você vai ao teatro e se depara com o semblante sereno da mãe terna de Jaime, filho de meia-idade, numa peça que emociona a plateia justamente pela integridade da relação dos dois personagens em cena.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

A coincidência da estreia da peça e da entrada da mãe-fera na novela de Gilberto Braga de 1988, reprisada de madrugada pelo canal Viva e fenômeno sem precedentes, é curiosa, e acaba por evidenciar o talento admirável desta atriz de 84 anos, prestes a completar 60 de carreira.

Em cartaz há duas semanas no Centro Cultural Correios, do Rio, Conversando com Mamãe - que só deverá chegar a São Paulo ano que vem, depois de passar pelo Teatro do Leblon - termina invariavelmente com a plateia em lágrimas. Muitos esperam para bater papo com Beatriz e Herson Capri, que vive o filho às voltas com a perda do emprego, o fim do casamento e a tal conversa, tão intensa quanto delicada, com sua mãe.

"Eles ficam admirados pelo fato de eu estar tão diferente nos dois personagens (no teatro e como Odete)", contou Beatriz semana passada, 1h30 antes de entrar em cena. "Mas se não fosse assim, eu não seria atriz. Essa é uma mãe amorosa. Odete é impositiva e má, principalmente com pessoas que cercam seus filhos." O texto foi adaptado pelo catalão Jordi Galcerán do premiado filme do argentino Santiago Carlos Oves, Conversaciones con Mamá, de 2004. No cinema, Jaime está rodeado da mulher, dos dois filhos e da sogra. No teatro, o embate oral é entre o filho que precisa desalojar a mãe e a senhora que tenta mostrá-lo mais sobre a vida, sobre ele mesmo. A ação já começa com uma discussão. Ao fim, diante de um Jaime fragilizado, a mãe diz: "Pode pegar as lágrimas e enfiar no c."

É o primeiro susto da plateia, que alterna momentos de risada e de silêncio reflexivo. Os espectadores riem especialmente ao ver a respeitável octogenária proferir palavras como "trepar", "bunda", "f.d.p."... Não, ela não é uma vovozinha, ainda que seja afetuosa.

"O filme não levava às emoções que a peça leva, não era tão engraçado nem tão emocionante. Isso veio pela direção (de Susana Garcia, mulher de Herson). Ela foi minuciosa na descoberta dos sentimentos deles", diz a atriz.

Herson não assistiu ao filme, para não se deixar influenciar na hora de compor o personagem. Ele lembra que a peça está comovendo as pessoas também por falar do alijamento dos mais velhos, num mundo em que não se tem tempo nem para si próprio. "O filho constitui uma outra família, e a mãe não faz parte dela."

Eles pretendem fazer uma longa temporada. Para Beatriz, a ida para São Paulo, no ano que vem, será fator facilitador. Ela não precisará mais pegar a ponte aérea todo domingo: quer voltar a dormir na própria cama e curtir os três filhos e dez netos.

Conversando com Mamãe - Centro Cultural Correios - Rio. R. Visconde de Itaboraí, 20, (21) 2253-1580. 5ª a dom., 19 h. R$ 20. Até 19/12.

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