Beatriz Segall leva choque de opiniões ao palco

O teatro em que a elegante Beatriz Segall se sente em casa é composto, em doses iguais, por montagens bem produzidas, alinhavadas com perícia e por bons textos, capazes de provocar e fazer pensar. Depois de atuar em Estórias Roubadas, do norte-americano Donald Margulies, em 1999, Beatriz volta à cena com outra peça que se encaixa como luva no repertório que vem esculpindo. No Teatro Faap, viverá a dama do teatro Esme Allen, protagonista de Ponto de Vista, do inglês David Hare. Dirigida por José Possi Neto, terá no palco a companhia de Marcelo Antony, Adriana Esteves e Miriam Pires. A estréia será no dia 5, às 21 horas. Antes disso, no dia 1.º, a produção poderá ser vista em uma première beneficente promovida pela Organização Wizo de São Paulo.Amy´s View (título original), escrita em 1997, foi uma das peças mais encenadas em todo o planeta nos últimos anos do século 20. Com vários prêmios, incluindo o Tony, ganhou palcos em dezenas de produções européias e norte-americanas. A mais célebre delas, saída do East End para a Broadway, era protagonizada por Judy Dench, que levou um Tony por sua Esme Allen em 1999, mesmo ano em que ganhou o Oscar pela esplêndida rainha Elizabeth que interpretou em Shakespeare Apaixonado. Embate - Beatriz Segall é a responsável pela chegada ao Brasil da obra de Hare, de 53 anos, um dos maiores autores do teatro inglês das últimas três décadas. Ponto de Vista apresenta ao público um formidável embate entre o teatro, defendido por Esme, e as modernas mídias, que eletrizam o genro da veterana atriz, Dominic Thygue, jornalista e crítico de TV. Entre esses antagonistas está Amy, filha de Esme, que defende o ponto de vista de que é preciso amar as pessoas incondicionalmente."A tradução correta do título inglês seria ´O Ponto de Vista de Amy´", observa Beatriz Segall. "Mas acabamos optando por ´Ponto de Vista´ apenas, pois a peça trata de várias opiniões, além das dela, e mostra o choque que se produz em decorrência dessas visões de mundo. "Beatriz pretendia fazer ´Ponto de Vista´ há quatro anos. Não conseguiu recursos. Agora, a montagem obteve patrocínios parciais da Votorantim e da TAM. O restante continua a ser captado. O responsável pela produção é Alexandre Doréa Ribeiro, da editora DBA. "Está dificílimo fazer teatro no Brasil: as leis de apoio não atraem e o governo omite-se", diz Beatriz. "Quando aparece um produtor como Doréa, é preciso protegê-lo e motivá-lo a continuar esse trabalho."Ela diz que para a saúde do teatro são imprescindíveis esforços como esse, exigido pela produção de Ponto de Vista. "É um grande texto, uma história profundamente verdadeira. Fala do choque entre teatro e televisão, que representam duas formas de ver as coisas, e também de desentendimentos, de amor filial e maternal, coisas que se vive todos os dias, com as quais todo o mundo se identifica." Beatriz Segall está muito entusiasmada com a peça."Para mim tudo sempre parte do texto e Hare criou uma história maravilhosa, aprofundou os pontos de vista das personagens de forma impressionante. É um grande autor, talvez o maior dramaturgo inglês de nosso tempo."Desafio - Esme Allen é um desafio para Beatriz. "Procuro criar as personagens sempre fora de mim, buscando imagens, modelos. Mas desta vez não. Estou descobrindo, a partir de minhas emoções, o modo de mostrar seu egoísmo, sua irresponsabilidade. Ela é uma mulher teimosa, que não pensa nas conseqüências de seus atos." As características de Esme obrigam a atriz a usar uma voz apropriada, uma postura adequada. Um andaime de construção delicada, que o público não deve perceber. "A psicologia da personagem é que me leva a uma determinada composição. A forma que o corpo toma vem da análise, do raciocínio, da percepção de como age essa mulher, de como ela é."Nos últimos anos, Beatriz Segall encabeçou várias montagens de sucesso de peças estrangeiras. Antes de Estórias Roubadas, havia feito, entre outras, Três Mulheres Altas, de Edward Albee. Mas não se sente em dívida com a dramaturgia brasileira. "Recebo muitos textos nacionais e leio-os com atenção. Já interpretei peças de diversos autores brasileiros e vou continuar a fazer isso. Mas não tenho encontrado personagens que me entusiasmem. Essa é a primeira condição para meu trabalho. Estou muito feliz por poder criar uma personagem da dimensão de Esme Allen. Essa é uma criação que vai entrar para a história. Não para a história do teatro brasileiro, claro, mas para a minha história pessoal. É uma peça marcante e uma personagem magnífica."Ela foi a responsável pela escolha do elenco. "É minha maior qualidade, uma coisa que sei fazer bem." Marcelo Antony, ela considera "um ótimo ator, formado no teatro". Ele foi a primeira escolha para fazer Dominic, quando Beatriz Segall quis montar a peça há quatro anos. "Não deu certo na época, mas agora, sim." Adriana Esteves, que vive Amy, "foi uma escolha mais recente, mas não poderia ter sido melhor. Ela tem a energia e a vitalidade necessárias". Miriam Pires vive a sogra de Esme. O elenco é completado por Luís Bacelli, que faz um agente e pretendente de Esme, e por Bruno Costa, como um jovem ator que aparece no final de Ponto de Vista.

Agencia Estado,

13 de agosto de 2001 | 13h02

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