Beatriz Resende analisa contos de Monteiro Lobato

 Este volume apresenta aos leitores os quatro livros de contos que Monteiro Lobato publicou em vida: Urupês, em 1918; Cidades Mortas, 1919; Negrinha, 1922 e O Macaco se Fez Homem, em 1923. A algumas das obras foram acrescentados, em edições seguintes, outros contos. O próprio Lobato, anotou, em alguns dos textos, o ano em que fora escrito.

28 de março de 2014 | 19h49

Todas as obras, portanto, foram editadas durante a Primeira República,a República Velha que dura da Proclamação até a Revolução de 1930 e é deste país que Monteiro Lobato se ocupa sob formas diversas em suas provocantes narrativas.

Escrevendo longe da capital, do “Rio-cartão-postal”, do “Rio civiliza-se” nos anos que se seguiram às reformas do prefeito Pereira Passos, o autor também não se deixa levar pelas ilusões dos paulistas da Semana Moderna, da Pauliceia Desvairada. Nem a avenida Rio Branco nem o Teatro Municipal de São Paulo representam o que poderíamos chamar de Brasil real. Mas é este que interessa a Lobato.

No Brasil real dos anos 1920, a república proclamada por militares era marcada pelo autoritarismo, o povo continuava excluído das decisões sobre o destino do país, o campo servia às oligarquias unicamente fonte de extração de riqueza distribuída em desigualdade extrema, aos negros pouco lhes servia a abolição recente, partilhando com os pobres as desditas impostas pela ordem escravocrata ainda em vigência.

Tomando o conjunto dos quatro livros de contos, o que torna as narrativas de Lobato originais, atribuindo-lhes um caráter revelatório comparável ao que Euclides da Cunha dá ao sertão e Lima Barreto aos subúrbios do Rio de Janeiro, é apresentar ao leitor a imensa pobreza do país, o atraso em que a maior parte da população permanecia imersa, as dificuldades em se implantar um regime realmente republicano, a convivência do atraso com ímpetos vanguardistas.

A contundência com que constrói a imagem do país, as imagens que apresenta da gente que o habita, as situações e os conflitos de seus personagens não só provocaram recepção favorável imediata como permanecem importantes no quadro da cultura brasileira sobretudo pela forma que Lobato, nestes textos, dá à realidade que quer mostrar, a da ficção.

Nas quatro obras que temos diante de nós, Lobato não nos fala como “intérprete do Brasil”, mas como narrador, como ficcionista, e é a partir de seu sucesso como contista que irá aparecer o ensaísta de Ideias de Jeca Tatu e outras obras de reflexão crítica, de pensamento social e político que irão se seguir.

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