Beatriz Milhazes traz suas telas e colagens para SP

Linhas e quadrados modificam a pintura conflituosa da artista carioca

Camila Molina,

03 de dezembro de 2007 | 21h25

Beatriz Milhazes diz que somente um "bom duelo" de cores a faz começar - e terminar - suas obras. "Mesmo que eu tenha imagens na cabeça, é o click com a cor que me motiva. Nessa tela, Love, foi a cor do linho que me estimulou a criar os duelos cromáticos", afirma a artista carioca, que exibe, praticamente, a sua produção total de 2007 na Galeria Fortes Vilaça.  Veja também: Galeria de fotos   Beatriz produz poucos trabalhos por ano: significa, em números, agora, cinco pinturas (feitas em acrílica sobre tela) e três colagens (uma delas, exposta não no espaço expositivo da galeria, mas em uma de suas salas internas). Dessa maneira, já se transformou em chavão dizer que sempre há uma fila de colecionadores à espera de conseguir uma de suas obras, vendidas, nessa exposição, a preços que variam de US$ 50 mil a US$ 250 mil. "O mercado é ótimo, mas pode ser cruel", diz a artista, que trabalha com quatro galerias (três no exterior) e credita seu bom sucesso comercial justamente ao fato de não ter reduzido sua pesquisa artística a uma fórmula. "Nunca quebrei minha relação com o trabalho, só o artista toma essa decisão", completa ainda Beatriz sobre essa inevitável questão.  Tanto que a artista está feliz por mostrar em São Paulo um conjunto de trabalhos que marca novos caminhos a serem tomados em sua obra. "É a exposição mais abstrata que faço", diz Beatriz, que no próximo ano também vai fazer uma grande mostra na Estação Pinacoteca. Ela sente forte a influência das colagens (em 2004, na Fortes Vilaça, ela exibiu pela primeira vez um conjunto de criações nesse campo, feitas com embalagens de chocolates que guardava) e dos projetos arquitetônicos que realizou na estação Gloucester Road e no restaurante da Tate Modern, ambos em Londres, em 2005 (em suas intervenções, fez composições colocando os elementos de seu vocabulário pictórico em vinil adesivo). "Isso fez mexer no meu desenho", diz Beatriz. Como a artista afirma, foi no final da década de 1980 que ela atingiu plasticamente o campo que viria a explorar até hoje: "Uma pintura com o universo da minha cultura e com o modernismo nacional e europeu (ela cita três nomes fundamentais para sua estrutura, Tarsila do Amaral, Henri Matisse e Piet Mondrian)." Em 1990, Beatriz Milhazes diz ter feito a primeira exposição com obras que já carregavam os elementos característicos de sua produção, mistura "heterogênea" de cores, arabescos, círculos, linhas espiraladas, figuras, referências ao tropicalismo, ao popular, ao óptico, ao carnaval, ao psicodélico. "O vale-tudo tem por base uma calculada incorporação do múltiplo, do diverso e do aparentemente auto-excludente...  Milhazes desmonta hierarquias de suas referências, evitando citações históricas que possam legitimar a imagem. No esforço de produzir cor, sua pintura indaga: qual o sentido da harmonia daquilo que se dissipou na origem, que se desestabilizou? Essa obra espera um olhar não normativo", transcreve Paulo Herkenhoff, de texto de Adriano Pedrosa, no livro Beatriz Milhazes (Editora Francisco Alves). Vale dizer que Beatriz Milhazes não pinta direto sobre a tela - sempre em grande formato -, mas faz uma espécie de decalque em suas composições - por isso ela acha natural estar hoje tão empenhada em fazer também colagens, cada vez maiores (tem até mesmo um ateliê somente para se dedicar a esse gênero). Conflito de cores Mas, como ela já afirmou, "sem a cor a imagem não acontece. Quando a sinfonia das cores não funciona, a sedução acaba." É na questão cromática, no "conflito" de cores - e ainda de tantos elementos - que tanta coisa acontece ao mesmo tempo em sua obra. "Tenho dificuldade de ver esse caráter sensual e de volúpia que as pessoas vêem na minha obra. Não trabalho a questão da sedução, sou pintora abstrata, me considero artista geométrica", ela diz. "Acho até que tudo é muito perturbador, tem muito excesso. Não é fácil conviver com os meus trabalhos", afirma ainda a artista em frente da obra Night-Club, no mezanino da galeria. Curioso porque essa tela é feita de uma estrutura repleta de linhas verticais - são elas que dão o movimento para o olho, antes, predominantemente, uma ação somente dos círculos. A influência da colagem, enfim, está fazendo Beatriz Milhazes ir mais para os quadrados (um deles, em Mocotó, tem um grosso contorno em preto). Para ela é algo óbvio porque o papel, por mais que possa ser moldado, tem uma estrutura definida - em sua última colagem, há inúmeros quadrados porque ela optou por usar sacolas. Não se pode dizer que os círculos vão desaparecer, ela acredita que eles continuarão e eles ainda estão no conjunto de obras que exibe. Mas, de alguma maneira, as linhas retas e verticais estão ganhando espaço e corpo no vale-tudo de Beatriz Milhazes.  Beatriz Milhazes. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, 3032-7066. 3.ª a 6.ª, 10 h às19 h; sáb., até 17 h. Grátis. Até 26/1

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