Beatriz Milhazes expõe sua pintura no Rio

No caso de Beatriz Milhazes, queexpõe um amplo recorte de seu trabalho no Centro Cultural Bancodo Brasil (CCBB) do Rio até o dia 26, não é nenhum exageroafirmar que se trata de uma das maiores artistas brasileiras ematividade. E não apenas pela qualidade de sua pintura, mas pelaprofunda brasilidade de sua obra, pelo fato de ela se alimentarde elementos da cultura e da estética popular, da força e dadiversidade da cor tropical, para compor suas grandes painéis,que nos atordoam e seduzem com sua "hiperfiguração".Pelo menos é assim que a artista define, em entrevistapublicada no catálogo da exposição, também intitulado Mares doSul - numa referência explícita à Gauguin e sua busca doparaíso tropical. Realmente, os elementos reconhecíveis, tiradosdo vasto repertório de imagens que compõem o imaginário populardas culturas latinas, se sobrepõem de maneira propositalmenteexagerada em suas telas. Ela cria verdadeiros arabescos,labirintos de formas e cores, a partir da superposição e colagemde elementos sedutores - e normalmente vinculados ao universofeminino e às formas de acentuada sinuosidade barroca - comorendas, corações, bordados, jóias e lantejoulas, anjinhos eflores, muitas flores.Mas se há em suas telas um excesso de referênciasfigurativas, ela deixa de lado a narrativa. Apenas sugere pormeio dos títulos (poéticos como Viagem ao Centro da Terra,Macho e Fêmea e Os Três Músicos) que poderia havernessas telas uma história; se ela assim o desejasse. É por meioda cor e das formas que todos reconhecemos que ela nos fazabandonar a reflexão para despertar nossos sentidos, estimulandonão apenas nossa visão, mas nossa memória sentimental. Os ecossão vários e vão desde as remissões evidentes a mestres da artemoderna (sejam eles brasileiros como Tarsila do Amaral, sejaminternacionais como Matisse e Gustav Klimt) a um certo toquepsicodélico, uma familiaridade com a vibração da Tropicália.Aliás, uma das telas centrais da exposição é A Seda, quepertence a Caetano Veloso, num encontro interessante entre duasvisões otimistas e sensuais do Brasil.Mas nem só de êxtase se sustentam as telas de Beatriz.Ao longo das quatro salas ocupadas pela exposição no terceiroandar do CCBB (cada uma delas pintada numa cor vibrante eintensa, o que parece reforçar o caráter ilusionista do trabalhoe leva o espectador a tentar, inutilmente, imaginar como a obrase comportaria em um ambiente mais neutro ou diferente), suaobra nos faz oscilar entre sentimentos intensos, sempre, masmuitas vezes antagônicos, como sensualidade e fé, melancolia eêxtase.Talvez essa grandiosidade de sua obra explique o sucessoobtido por essa artista de 42 anos, um dos poucos autoresbrasileiros com trânsito no mercado internacional. Se levarmosem consideração apenas os últimos meses, Beatriz inaugurou essagrandiosa mostra panorâmica no Brasil, teve confirmado o convitepara representar o Brasil na próxima Bienal de Veneza, comRosangela Rennó, e lançou o livro Coisa Linda, que inaugurao projeto Contemporary Editions do Museu de Arte Moderna (MoMA)de Nova York. Trata-se de uma edição especial, de apenas 200exemplares, com 32 serigrafias da artista contrapostas a letrasde 44 músicas brasileiras selecionadas especialmente pelaartista.

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2003 | 16h35

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