O pai abandonou a família quando ele tinha três anos. Foi criado pela avó. Teve tuberculose na infância. A fama trouxe várias internações por excesso de drogas, remédios ilegais e alcoolismo; fumava 60 cigarros por dia. Com essa ficha corrida, é de se espantar a atual forma física e a lucidez de Ringo Starr, o "homem mais sortudo do mundo" - ele parece uns 10 anos mais jovem que Paul McCartney, por exemplo. E, de todos os ex-beatles, é o que tem a carreira mais voltada para o futuro. Só toca duas canções da ex-banda nos shows, e grava e excursiona regularmente desde que o grupo se separou.

02 de novembro de 2011 | 03h05

Vegetariano, magro como um palito, ágil e rápido com as palavras, ele não apenas tem saúde para dar e vender, como também é multimilionário. Possui casas em Los Angeles, na Inglaterra e em Monte Carlo. "Cada vez que eu faço um disco, as pessoas me perguntam: por que você vai fazer outro disco? E eu respondo: não só vou fazer um disco como vou fazer outra turnê. E aí eles berram: 'O quê? Com todo o dinheiro que você tem?'. Mas o que quer que digam, eu respondo: é o que eu faço, é o que eu amo fazer", disse Ringo ao Telegraph, no ano passado, quando lançou o disco Y Not? - e saiu de novo pelo mundo.

Às costas do palco da turnê de Ringo, um cenário hipercolorido, com flores cor de rosa, uma estrela do mar no centro de tudo (seu símbolo pessoal, "the star") e uma banda que parece ter saído de um túnel do tempo setentista. Dominando tudo, como se estivesse numa colina, a bateria do beatle, com o bumbo clássico do kit Ludwig (bateria que usa desde 1963).

Eternamente rotulado como o "simplista e sem talento" baterista que os Beatles chamaram para entrar no lugar do negligente Pete Best, em 1962, Ringo chegou a abandonar as gravações do White Album dos Beatles por considerar que não estava à altura dos colegas. Quando voltou ao estúdio, George Martin tinha enchido o local de flores, tal a amizade e a simpatia que os outros músicos tinham por ele.

Mas hoje sua influência como instrumentista é amplamente reconhecida. O baterista Abe Laboriel Jr., que toca com Paul McCartney, diz que o estilo de Ringo é uma referência fundamental. "Sua abordagem da bateria foi importante para o desenvolvimento do estilo de John Bonham (Led Zeppelin) e Stuart Copeland (Police)", disse Laboriel ao Estado. "Muitos discordam dessa afirmação, porque a técnica é apenas um dos aspectos da arte de tocar bateria. A técnica é 10%, os outros 90% são musicalidade, coisa que Ringo domina."

É um workaholic. Como chefe, dá liberdade à banda, estimula a criatividade, diz seu tour manager, Dave Hart. Mas não vai fazer nenhum passeio no Brasil. "É uma turnê de trabalho."

A banda de Ringo, The All Starr Band, é historicamente competente. A formação que vai ao Brasil não é a mais prodigiosa, embora Edgar Winter seja fera. Está muito focada em um tipo de pop dos anos 1970, e soa como banda de baile. Tem um cheiro de obsolescência, e o repertório não é dos melhores. Ainda assim, 10 mil pessoas compraram os ingressos em tempo recorde para o show único do Auditório Nacional da Cidade do México. Em São Paulo, os dois shows no Credicard Hall terão disposições distintas - um, com cadeiras, terá um público de 3,5 mil pessoas. Outro, com arquibancada e pista, terá cerca de 5 mil espectadores. / J.M.

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