Fábio Rocha/ Globo
Rapper Karol Conka é uma das participantes do 'BBB 21' Fábio Rocha/ Globo

‘BBB 21’: O que a rejeição faz com uma pessoa?

Termo é um dos mais procurados no Google desde o início do ‘Big Brother Brasil’; especialistas alertam para risco de depressão e ansiedade

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2021 | 12h05

Você se recorda dos primeiros dias na escola quando tentava fazer amizade e não era aceito? E quando você se declarou amorosamente e não foi correspondido? Na família, quem nunca buscou aprovação dos pais, sem sucesso, que "atire a primeira pedra". Recordar de como se sentiu nessas situações pode ser doloroso. E todos nós já fomos rejeitados em algum momento de nossa história. 

Rejeição tem sido uma das palavras mais procuradas em sites de busca pela internet graças ao Big Brother Brasil 21, na TV Globo. No Google, por exemplo, o termo aparece nos primeiros lugares de pesquisa ao lado da foto do humorista Nego Di, último a sair do reality show, que teve 98,76% de reprovação pelo público. 

Em edições anteriores do programa, Aline Cristina, do BBB 5, havia sido eliminada com 95% dos votos em um paredão duplo contra Grazi Massafera. Em 2018, Patrícia Leitte foi rejeitada por 94,26%.

No paredão de terça-feira, 23, entre Arthur, Gil e Karol Conká, a rapper saiu com recorde histórico de rejeição no BBB: 99,17%. Um perfil batizado de "Rejeição da Karol", cuja descrição diz que “a meta de ter mais seguidores que a Karol”, faz postagens negativas sobre ela e já soma 2 milhões de adeptos. A reportagem do Estadão entrou em contato com a equipe da cantora para que ela comentasse esses fatos, mas não obteve resposta. Karol se envolveu no cancelamento do ator Lucas Penteado no início do programa. 

 

Alguns sinônimos da palavra rejeição já dão pistas de como ela pode ser danosa: repulsa, aversão, desprezo, repugnância. Apesar de o público debater a questão agora, nos consultórios de psicologia, o tema é recorrente. 

Mas de onde vem esse medo da reprovação? A psicóloga Desirée Cassado, mestre pela Universidade de São Paulo e especialista em terapias Contextuais, enfatiza que a humanidade tenta enfrentar a questão desde os primórdios. “Ao longo da nossa evolução dependemos do grupo para garantir nossa sobrevivência. Em nosso passado de caçadores, ser rejeitado por aqueles que nos rodeavam era equivalente a uma sentença de morte, já que dificilmente sobreviveríamos por muito tempo sozinhos. Por isso, é esperado que busquemos pertencimento e a aceitação dos nossos pares. Somos naturalmente avessos à rejeição e isso teve uma função vital em nosso passado evolutivo”, analisa. 

Na fase escolar, quando a criança não é aceita por grupos nos quais busca fazer parte, os efeitos emocionais podem ser sérios, na opinião de Deisy Emerich-Geraldo, doutora em Psicologia Clínica pela USP. “São consequências devastadoras para o futuro desenvolvimento sócio-cognitivo de uma criança. Estudos mostram que aquelas que experimentam rejeição e exclusão pelos colegas tendem a se tornar mais retraídas socialmente com o tempo. Alguns desfechos clínicos associados na infância são: problemas acadêmicos, ansiedade, depressão, abuso de substância e comportamento agressivo”, afirma.

Quando essas questões não são resolvidas na infância ou adolescência, seja com acolhimento dos responsáveis ou em psicoterapia, o indivíduo carrega o problema para a vida adulta. Não é raro que pessoas que tenham sido rejeitadas sintam medo de arriscar fazer novas amizades ou um relacionamento amoroso. Insegurança também é um dos aspectos que merece atenção já que, "se eu não agrado, prefiro fazer escolhas seguras” e em que “não corro o risco de fracassar”. 

“A rejeição também pode provocar aumento de raiva e agressão. Em 2001, o Surgeon General of the U.S. emitiu um relatório afirmando que ela influenciava o comportamento violento em adolescentes com mais impacto do que uso de drogas, pobreza ou associação a grupos violentos. Sabemos que mesmo exclusões moderadas podem ser o contexto para o aumento da agressão”, ressalta Desirée Cassado. 

Rejeição começou no ‘BBB 21’ dentro da própria casa

Empatia e afinidade são elementos fundamentais de sobrevivência dentro de um reality show. Com elas, você conquista colegas e forma grupos. A aceitação do público é influenciada, sobretudo, por essas situações.

Nas primeiras semanas do Big Brother Brasil 21, Lucas Penteado foi isolado por grande parte dos colegas após sugerir estratégias de jogo e por comportamentos exagerados durante as festas na casa. Sempre que tentava fazer alguma aproximação, se mostrar interessado nas conversas ou dar opinião, o ex-BBB era ignorado. E mesmo depois de pedir desculpas aos envolvidos. A pressão foi tão grande que o jovem decidiu deixar o programa, após a frustração por não se sentir aceito. 

A psicóloga Deisy Emerich-Geraldo acrescenta que os sentimentos nessas circunstâncias podem ir além da raiva e tristeza. “Também há dificuldades envolvendo o autoconceito, ou seja, as crenças que a pessoa tem sobre si. Podem ocorrer sintomas internalizantes, como depressão e ansiedade, e sintomas externalizantes, como comportamento agressivo”, diz.

Em casos de desespero, quando percebemos que vamos fracassar nas relações interpessoais, agimos como se nossa personalidade adquirisse características daquele determinado grupo, mesmo que não tenham haver com a gente. “Muitas vezes respondemos às rejeições buscando em nós todas as  inadequações que podem estar causando a rejeição do grupo. É tão doloroso não pertencer que é possível que busquemos inúmeras formas de “corrigir” nosso comportamento ou aparência a fim de voltar para a proteção do grupo”, avalia a especialista em terapias Contextuais Desirée Cassado. 

O que a rejeição faz com uma pessoa?

Em confinamento, os participantes do Big Brother Brasil não têm acesso às informações externas e não fazem ideia de como o público está reagindo diante das condutas durante o reality. As manifestações coletivas dos espectadores são um termômetro de como os comportamentos são interpretados aqui fora. Nas redes sociais, o sentimento de indignação se mostra perigoso, na medida em que perfis anônimos são utilizados para agressões psicológicas, cancelamentos e ameaças aos familiares de alguns participantes.   

Ao sair do BBB 21 na semana passada, Nego Di desabafou em um vídeo no Instagram: “Essa rejeição foi um choque, tu sai de uma casa onde tu está completamente alienado do que está acontecendo e é empurrado para um ao vivo e fui eliminado com 98,76%. É um choque. Quando eu peguei meu celular, eu estava recebendo uma enxurrada de xingamentos e ofensas. Ofensas racistas e xenofóbicas”.

 

 

Para a psicóloga Deisy Emerich-Geraldo, a repercussão da saída do reality depende da percepção individual: “E a experiência pode ser ainda mais dolorosa quando é percebida como injusta, inesperada e fora de controle. A avaliação que cada pessoa fará sobre sua participação e atitudes poderá influenciar a forma como vai vivenciar a situação de saída do programa”. 

Na opinião de Desirée Cassado, é impossível prever como os brothers reprovados pelos espectadores irão reagir aqui fora. “A rejeição pode não ser de grande impacto, se o indivíduo sente-se acolhido e aceito pelas pessoas do seu círculo íntimo. Por outro lado, a desaprovação do público pode ser tão aversiva que é capaz de provocar sentimentos como vergonha e constrangimento”, finaliza.

Quando saírem do confinamento, os BBBs que foram rejeitados devem se desconectar por um tempo da repercussão negativa e refletir sobre alguns comportamentos que tenham provocado a aversão do público. Reconhecer erros é importante não só para tentar salvar a imagem na vida real ou suas carreiras, mas para promover o autoconhecimento e a evolução como seres humanos. O acolhimento da família e um acompanhamento psicológico também são fundamentais para preservar a saúde mental.

VEJA TAMBÉM: Quem são os participantes do 'BBB 21'

 

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'BBB 21' desperta raiva e preconceito no espectador, indica pesquisa

Quase 90% de quem acompanha o reality show já sentiu emoções negativas fortes, mas apenas 7% pensa em parar de assistir; psicanalista fala em identificação e quebra de uma expectativa positiva do entretenimento

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2021 | 07h03

O BBB 21 estreou há três semanas e já levantou discussões sérias sobre temas como violência psicológica e cultura do cancelamento. A atenção do telespectador está voltada aos desdobramentos de cada 'treta' que ocorre na casa, mas esse interesse tem gerado sentimentos negativos que estão atrelados à saúde mental e emocional de quem assiste.

Uma pesquisa realizada pela Hibou, empresa de monitoramento de mercado e consumo, indica que os temas no reality show incomodam e despertam gatilhos.

Entre os brasileiros que estão acompanhando o programa (52% de 2.467 entrevistados), 86% afirmam que já sentiram emoções negativas fortes, sendo que raiva, tristeza, preconceito e humilhação têm maior expressividade. As respostas foram coletadas de forma virtual entre os dias 5 e 6 de fevereiro, em território nacional. A amostra contou com pessoas acima de 20 anos, englobando o público ABCD, sendo que 56% eram casadas e 58%, mulheres.

Com mais de 20 anos no ar, o Big Brother Brasil já faz parte da rotina de entretenimento sazonal da população. Nos três meses em que fica no ar, o programa pauta a imprensa, as conversas entre amigos e até mesmo quem não assiste tem opinião sobre a atração. O telespectador está ali para uma espécie de diversão, mas a quebra de uma expectativa positiva acaba provocando sensações contrárias.

"O público tem uma noção de que entretenimento é positividade e não mexe com questões que são negativas, como tragédias, discussões, desencontros e brigas. Mas, de alguma forma, [o programa] faz tanto sucesso justamente porque a ideia é desvelar, abrir para o grande público a espontaneidade e a vida privada das pessoas e isso lida também com coisas negativas, porque não tem como ter controle", comenta o psicanalista Leonardo Goldberg, doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo.

Segundo o especialista, a diferença da edição atual do BBB para as anteriores é que, agora, as pessoas estão nomeando e descrevendo os próprios sentimentos quando veem uma situação que causa identificação, seja de alegria ou repulsa. E diferente de uma novela, em que, na maior parte, os vilões, os mocinhos e as zonas de tragédias são bem definidas, o reality show traz reviravoltas. Ao perceber que alguém, antes visto como 'bonzinho', se revela completamente diferente, o público sente o impacto de modo mais íntimo.

"É a quebra de que o entretenimento traria um apaziguamento das paixões, sem brigas nem discussões. Esse BBB está sendo um balde de água fria, uma quebra de ilusões. Tem um colapso nessas definições e o espectador fica bagunçado", diz Goldberg. E como produto cultural de consumo, a atração da TV Globo atrai interesse e desperta prazeres e repulsas, alegrias e tristezas, da mesma forma como quando nosso personagem favorito é assassinado de modo cruel na história de um livro ou o vilão tem vitórias sucessivas em uma série ou filme.

VEJA TAMBÉM: Participantes do BBB eliminados com as maiores rejeições

Mas o curioso do ser humano é seguir consumindo justamente aquilo que lhe causa desprazer. A pesquisa da Hibou mostra que apenas 6,7% dos entrevistados estão pensando em parar de assistir ao Big Brother Brasil 21. Entre os motivos estão: ausência de um clima feliz (51,3%), conteúdo pesado (50,6%), muita discussão boba e pouca diversão (43,8%) e cansaço do assunto de cancelamento (36,9%). Por que, então, seguimos vidrados?

"O espectador está um pouco mais amadurecido em relação a conteúdo que é muito estático, em que ele já sabe o que vai acontecer no final. Muito do que a gente aclama é aquela velha máxima de: 'tudo o que achei que ia acontecer não aconteceu'. A graça do reality show são esses movimentos de reviravoltas", responde o psicanalista.

Para 51,4% dos entrevistados na pesquisa da Hibou, o que chama atenção no programa, de forma geral, é a possibilidade de bisbilhotar o comportamento das pessoas. Outros 49,4% disseram que gostam mesmo é dos conflitos por opiniões e atitudes distintas. Apenas um quarto deles afirma relaxar assistindo à atração e 19,9% dizem que acompanham o reality para ter assunto com os amigos.

Uma vez que, em grande parte, o BBB mostra a vida privada e cotidiana das pessoas como ela é, a sensação de pertencimento e identificação faz com que, mesmo sofrendo, o telespectador continue vigiando a casa. Afinal, ele sabe que também existem problemas e intrigas na vida real.

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‘BBB21’: Famosos comemoram Karol Conká no Paredão

Logo após a indicação, a rapper curitibana foi o assunto mais falado do Twitter

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 10h27

Sarah usou seu poder de líder do Big Brother Brasil 21 para colocar Karol Conká, sua adversária no jogo, direto no Paredão. A brasiliense chamou a rapper de “incoerente” e, na noite deste domingo, 21, logo após a indicação, as hashtags “fora Karol” e “Karol no paredão” foram os assuntos mais comentados do Twitter

A curitibana forma o quarto Paredão triplo do programa com Gilberto e Arthur, mas já tem muita campanha a favor da sua eliminação. Muitos famosos se manifestaram, como Marília Mendonça, Bruno Gagliasso, Deborah Secco, Maisa, entre outros. 

A cantora Anitta também comemorou a indicação de Karol, mas desejou que a rapper não sofra consequências pelo jogo depois que deixar a casa. “Amei Karol no paredão igual todo mundo. Não concordo com nada que ela fez e faz no jogo. Mas, ainda assim, temo pelo que pode acontecer com ela quando sair. Espero que ela possa andar na rua e tenha ajuda psicológica quando sair. Desejo que saia, que se dê mal no jogo porque fez um péssimo jogo, que tenha a consequência de seus atos, mas que possa ter oportunidade de aprender e ter uma vida quando sair”, escreveu Anitta, que já havia feito uma série de vídeos condenando a prática do cancelamento e do julgamento exagerado na internet.

Lucas Penteado comemorou a indicação da sua algoz.

Bruno Gagliasso brincou com a votação recorde de Nego Di e disse: “vamos dobrar a meta”.

Marília Mendonça, uma das maiores críticas da Karol, até mudou o nome do seu perfil para “Marília está otimista”.

Debora Secco, Maisa e Daniela Mercury engrossaram a torcida pela saída de Karol e tem até enquete. 

Já os músicos Wesley Safadão e Mumuzinho comemoraram a escolha de Sarah.

Já que é pra tombar

Desde sua indicação, Karol Conká tem pensado em como será se for eliminada. Em conversa com Gil e Lumena ela contou que espera muito julgamento, mas garantiu que não vai se abalar.  “Eu não tô nem aí. Espero que todo mundo tenha falado mal de mim pelas minhas costas, porque eu já vivo isso, entendeu? E é normal as pessoas falarem mal da gente. Não quer dizer, necessariamente, que a gente é uma merd* de pessoa”, disse a rapper, que ganhou o apelido de Jaque na internet, uma alusão à sua música Tombei: "Já que é pra tombar, tombei".

A sister há algum tempo vem demonstrando o desejo de sair do programa e já chegou a arrumar as malas depois de uma festa turbulenta, na noite em que Lucas Penteado desistiu. “Aqui é muito fácil, pra mim, se perder. É muito fácil adoecer. E eu tive um sonho em que eu ficava louca. Não que vá ficar louca, mas talvez a minha luz vá apagando e não é isso que eu quero. Parece que a minha noção já foi aqui, já deu”, contou à Projota.

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