B.B. King se apresenta em São Paulo

B.B. King não fez pacto com o diabo. Ele acredita em Deus, tem um coração generoso, mas reconhece que uma força estranha o possui quando está diante da plateia, de costas para a orquestra, com Lucille nos braços. Algo paralisa sua espinha, contrai seus músculos do rosto e faz seu coração migrar para a ponta do dedo indicador da mão esquerda. É lá que tudo ganha sentido. 87 anos de vida, 15 filhos distantes que ele ama mas não viu crescer, pencas de mulheres que deixou em hotéis de estrada, desgostos, tragédias, vitórias e condecorações em apenas uma nota que vibra mais forte do que as outras três ou quatro que B.B. usa para contar uma história inteira.

AE, Agência Estado

05 de outubro de 2012 | 11h44

Há 80 anos é assim, desde que Riley Ben King, antes de ser B.B., descobriu as duas coisas que o fariam viver em constante estado de levitação: sexo e blues. Mais especificamente Peaches, uma garota de 7 anos de idade, um ano mais velha do que B.B., que brincava com ele de médico sob a luz de um lampião, em Memphis, e Lowell Fuson, o guitarrista que gravou "Three O?Clock Blues" e deixou o moleque embriagado pelo som da guitarra. "Foi esta música que mudou a minha vida", disse B.B. em suas memórias, lançadas em 1996.

Eis o mistério da invencibilidade de um homem que chegou a demitir o infeliz de um empresário que insistia que ele largasse a estrada e só fizesse shows nos Estados Unidos. O último bluesman da primeira safra de 40 em atividade (Buddy Guy e Magic Slim são apenas seus alunos). O primeiro artista que fez brancos e negros dividirem a mesma plateia e se levantarem para aplaudi-lo durante os anos de segregação racial. B.B. King conta sua história todas as noites em que está com Lucille, usando poucas notas e, sobretudo, o indicador da mão esquerda.

Às 22 h desta sexta, começa tudo outra vez. A temporada de B.B. King em São Paulo, depois de passagens pelo Rio e Curitiba, se estende até sábado, no Via Funchal, e termina domingo no palco de sua residência no País, o Bourbon Street Music Club, que ele veio para inaugurar em 1993 depois de uma gloriosa batalha empreitada pelo empresário Edgard Radesca e seus sócios. "Pagamos parte do cachê com um empréstimo que pegamos no banco e outra parte com o dinheiro que levantamos em uma sociedade por tempo limitado aberta entre 20 amigos", lembra Radesca.

Os trajetos de BB pelos países em que se apresenta são sempre feitos de ônibus. E não por temer que sua aeronave despenque. King gosta de sentir a estrada e detesta procedimentos de segurança dos aeroportos. Não é mesmo fácil imaginá-lo tirando o cinto e os sapatos para passar em um detector de metais. Em um ônibus seguem técnicos e banda. Em outro, vão King, seu empresário e o mordomo Norman, que há 50 anos sabe exatamente como controlar a diabete do patrão fazendo seu chá com a medida certa de adoçante e não esquecendo o horário das refeições. Quando não ronca, olha a paisagem passar pela janela ou acessa e-mails em seu laptop.

O Brasil é um lugar que faz King quebrar protocolos. Sábado, no Rio de Janeiro, fez um bis que não estava na lista depois de sentir a maior aclamação de sua temporada. E tudo porque aprendeu a contar uma história de 87 anos com toda a verdade que coloca em quatro ou cinco notas. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

B.B. KING

Via Funchal (R. Funchal, 65). Tel. (011) 3846-2300. 6ª e sáb., 22 h. R$ 250/700; Bourbon Street (R. dos Chanés, 127). Tel. (011) 5095-6100. Dom., 22 h. R$ 1.200.

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