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Batuque de piano

Nem todo mundo samba. Ao contrário do pai, Martinho da Vila, Maíra saiu mais jazz

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2011 | 00h00

Na casa de bambas de Martinho da Vila, a música reina, mas nem sempre faz samba e sambistas. Se você levar à risca que o piano é um instrumento genuinamente percussivo, não há dúvidas de que Maíra Freitas tem afeição pelo gênero que consagrou o pai. Este legado familiar, porém, está longe de definir sua obra, mais próxima do jazz americano do que das rodas animadas da Vila Isabel. A jovem artista também não entra neste rol de novas cantoras moderninhas da cena paulistana, adeptas da linguagem pop. Há um rebuscamento no canto e na execução que só encontra explicação na sua virtuosa formação. Maíra fez conservatório, estudou o piano desde seus nove anos, capaz de constituir um cartel erudito poderoso.

Assim que entra em cena, não canta. Doma as teclas com brilho no choro O Voo da Mosca, de Jacob do Bandolim, tema escolhido para abrir o CD homônimo, produzido pela irmã Mart"nália. O clima de cabaré se forma com O Show Tem que Continuar, dessas para arrancar suspiros da plateia masculina. Ao lado do pai, impera sobriedade, numa versão pouco convencional de Disritmia. A fartura no repertório ainda coloca Maíra à frente de composições de Paulinho da Viola (Só o Tempo), Gonzaguinha (Recado) e Chico Buarque (Mambembe).

Difícil apontar defeitos num registro tão bem acabado, agradável e de referências tão cultas. Ao repousar sua voz sobre um piano virtuoso, ela escolhe um caminho seguro para revelar histórias de apelo romântico. Alô, outra das suas canções, é um caso emblemático. O arranjo sofisticado, denso, parece não se encaixar na simplicidade de seus versos. Mas é neste certo descompasso que Maíra consegue extrair o melhor de si.

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