Marcelo Santana
Marcelo Santana

Batuque das Gerais

Cena mineira com base no samba começa a ganhar mais projeção para fora do Estado

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Os shows dos representantes do novo samba mineiro tiveram grande repercussão na série de shows do programa Conexão Vivo em Salvador, na semana passada. Dois deles - o cantor, violonista e compositor Gustavo Maguá e o violonista de 7 cordas, compositor, produtor e arranjador Thiago Delegado - acabam de lançar robustos álbuns de estreia e confirmam que tanto o samba como a música instrumental mineira ligada a esse gênero estão em alta.

Além deles, a superbanda Senta a Pua! e o coletivo Samba do Compositor - projeto de Miguel dos Anjos, Mestre Jonas e Dudu Nicácio (do Dois no Samba) - protagonizaram alguns dos melhores shows do evento. Trocando impressões, eles representam uma cena que se fortalece em Minas (onde naturalmente o samba sempre existiu de alguma forma) e começa a se projetar para fora do Estado.

Mestre Jonas é um dos nomes de ponta dessa cena. Violonista, cantor de voz potente e compositor gravado por diversos intérpretes, ele também criou o projeto Samba na Madrugada em Belo Horizonte. Sua música tem forte ligação com a religiosidade e a cultura mineira de matriz africana, como mostrou no ótimo CD de estreia, Sambêro, lançado em 2010.

Jonas, Maguá e Delegado vêm de escolas musicais diferentes, produzem os próprios trabalhos mas não se encaixam no perfil clássico do sambista. Eles expandem essa música que tem base no samba, mas difere da tradição, seja com influência de rock, choro, ijexá, gafieira ou das harmonias mineiras.

A receita conquistou os baianos que vibraram com os shows. Banda que está na ativa desde 2007 em Belo Horizonte, a Senta a Pua! sacudiu o público com seu suingue de gafieira, choro e samba-jazz instrumental, com cordas, percussão e metais. Quando Elza Soares entrou para cantar com eles clássicos como Malandro (Jorge Aragão/Jotabê), Se Acaso Você Chegasse (Lupicínio Rodrigues) e O Neguinho e a Senhorita (Noel Rosa de Oliveira/Abelardo Silva) o bicho pegou. Foi antológico. Igual quando a baiana Mariene de Castro se juntou à roda do Samba do Compositor.

Cantor versátil e carismático, de voz calorosa e bem projetada, Maguá, como ele mesmo diz, "é só alegria". No show, incrementou sua suingueira com colaboração marcante do paulista Marco Mattoli, do Clube do Balanço.

No CD Vol. 1, gravado com apoio da Conexão Vivo, Maguá buscou a sonoridade dos anos 1970. Suas influências vêm desde o sambalanço de Jorge Ben e Wilson Simonal, a baianidade de Gilberto Gil e Caetano Veloso, o samba de João Nogueira, até a "malandragem diferente" de Zeca Pagodinho e Seu Jorge, gafieira e pagode. Assinando canções com vários parceiros - Thiago Dibeto, Paulinho Motta, Renegado, Ricardo Acácio -, Maguá também traz novidades de Oleives, Rai Medrado, Vitor Santana e Celso Viáfora.

Violonista desde a adolescência, ele começou a cantar há cinco anos em Belo Horizonte. Como compositor diz que sempre trabalha com bom humor, como uma espécie de cronista do cotidiano, na melhor tradição do samba. "Não vejo a coisa pura, clássica do samba em Minas, no meu caso menos ainda, com influência do rock e outros gêneros. Mas o que amarra mesmo minhas composições é o samba."

Habilidoso e versátil, Thiago Delegado tocou com Maguá e com o Samba do Compositor em Salvador e trabalha com uma penca de artistas em Minas. Seu primeiro trabalho solo, Serra do Curral, quase todo instrumental, é uma mistura de suas influências - samba, choro e bossa - e também uma congregação com seus conterrâneos. Juarez Moreira, uma de suas influências, é um de seus convidados. O outro é o carioca Edu Krieger, parceiro na faixa-título, a única com letra e vocal.

Delegado começou a tocar piano ainda criança e passou para o violão aos 12 anos, tendo João Gilberto como referência inicial, depois Baden Powell, Raphael Rabello e Dino 7 Cordas. Tornou-se profissional aos 22, tocando na noite MPB, samba e choros elaborados.

Coletivo. "O disco veio de um processo natural, de encontros com pessoas que me ajudaram a desenvolver um projeto pessoal", diz Delegado. Tocando em trio, com quarteto e bandas maiores, com "o negócio de improvisar" ele diz que abriu mais a cabeça para o universo da música mineira, presente no CD.

O músico considera Serra do Curral um trabalho coletivo, que representa bem sua geração de instrumentistas mineiros, como Flávio Henrique, Sérgio Danilo, Rafael Martini, Pedro Trigo, Warley Henrique, Aloízio Horta, Juliana Perdigão, Cléber Alves e vários outros. "Como estou no meio desse furacão em Minas, quis reunir a turma toda."

Integrante da banda da cantora Aline Calixto - outra voz de grande expressão nessa cena mineira -, ele deixa sua marca, tanto pela sonoridade de seu instrumento como na produção de uma série de outros artistas, caminhando para ser uma espécie de Paulão 7 Cordas das Gerais. É um nome a se prestar atenção.

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