Ela se define como uma virginiana "no último grau". Daquelas de fazer listas sobre tudo. Mas não é essa a sua característica mais comentada - nem a mais criticada, especialmente no implacável tribunal da internet. Aos 36 anos, Luana Piovani é conhecida mesmo por não ter papas na língua. Adepta da tecnologia, a atriz e produtora teatral costuma usar e abusar das redes sociais para expressar suas opiniões, fazer reivindicações ou desabafos e, não raras vezes, lançar farpas contra quem não a agrada. Sem dó.

11 de março de 2013 | 02h12

Dona de beleza singular e de personalidade forte, costuma ter todos os passos vigiados. Com duas décadas de terapia nas costas, garante estar mais madura, hoje, para segurar o tranco. "Com 21 anos, amor, ninguém podia comigo", declara. Mas deixaria de chutar o balde? "Não. Tanto é que nunca deixei. É um traço da minha personalidade". Na lista para 2013, aliás, além de parar de tomar refrigerante e nadar com o filho Dom, um item chama a atenção: "pegar mais leve" na internet. Garante estar cumprindo. Mas, confessa: dias antes da entrevista, tinha xingado (mais uma vez) alguém pelo Twitter. "Estava mexida com a história de Santa Maria", justifica Luana - dona de um extenso repertório de palavrões.

O último alvo de sua ira foi outra bela: Sabrina Sato. No carnaval, disparou tuíte contra a apresentadora: "Para mim não adianta samba no pé e corpão. Tem que ter postura admirável." Causou furor de novo, suscitando a dúvida: conseguirá cumprir a própria promessa? Bem, polêmicas à parte, ela está à vontade no papel de mãe. Olhos brilhando ao falar de Dom e do surfista Pedro Scooby, com quem vai casar em julho, quer mais: "Só penso nisso, uma família grande e colorida."

Leia a seguir os principais trechos da conversa de Luana Piovani com a coluna, em uma livraria no bairro do Leblon, na zona sul do Rio.

Como foi o seu reencontro com as telenovelas?

Muito feliz. Eu assisti Guerra dos Sexos e amava, era um momento sagrado com a minha mãe. Então, além de me divertir, tenho essa recordação afetiva. E tem o Silvio de Abreu, que eu sempre admirei; o Jorginho Fernando, que é um cara sem máscara. Eu sou muito mal compreendida no geral. Às vezes, se não estou perto de pessoas que me entendem, posso ser mal interpretada. O Jorginho é muito parecido comigo, com ele, me senti protegida. E faço o braço direito da Irene Ravache, minha musa inspiradora. Na minha última novela, Suave Veneno (exibida pela TV Globo em 1999), interpretava a filha dela. Tinha 21 anos e, desde então, sou devota de Nossa Senhora de Irene Ravache.

Por que ficou tanto tempo afastada da TV?

Nas outras vezes que fui chamada para fazer novela, muitas vezes estava engrenando uma peça de teatro. E um projeto meu tem, no mínimo, um ano ou dois - sou produtora e protagonista. Ao mesmo tempo, também por opção. Não consigo criar se não estou num ambiente de trabalho propício. E a novela é um lugar de muito estresse. Tinha medo de chegar no meio e jogar a toalha, Tenho uma ligação muito forte do meu ofício com o prazer - uma coisa é atrelada à outra. Não sei se, depois de mais de 20 anos trabalhando, conseguiria trabalhar de outra forma. O Dom me deu uma força muito grande.

E o que mudou na sua vida com a maternidade?

Me sinto cada vez mais forte, mais segura. Estou num momento de melhora contínua. Queremos ter três filhos e adotar um quarto. Mas tem que ter muito dinheiro, então estamos indo one by one. Só penso nisso: uma família grande e colorida.

O que vai fazer quando as gravações da novela terminarem?

Preciso arrumar uma babá. A novela acaba em abril e, em maio, ia passar um mês em Nova York de férias, mas acabei de desmarcar a viagem. Minha babá casou e quer dormir com o marido toda noite (risos). Arrumar outra não é fácil. Minha folguista estuda Administração; minha babá pensa em fazer Pedagogia. É um processo natural, amo pessoas que querem evoluir. Quando conseguir, vou me jogar. Talvez vá para Paris, fico dois meses fora, volto e começo a ensaiar minha peça infantil, que sai esse ano. Chama-se Mania de Explicação. É um livro da Adriana Falcão adaptado para o teatro. Itaú, Porto Seguro, Volvo e Gol são patrocinadores e parceiros. Vamos estrear em outubro, no Rio.

O que está planejando para a cerimônia de casamento?

Vai ser em julho, aqui no Rio, na Casa das Canoas, um lugar lindo. Sou evangélica e o Pedro é católico, então estamos decidindo se vamos pedir para alguém dar uma bênção ou se vamos chamar pessoas importantes para nós para darem depoimentos e uma delas ler um trecho da Bíblia. Somos muito espiritualizados, queremos, de alguma forma, ter Deus ali e não apenas celebrar.

Há quanto tempo faz análise?

Eu comecei fazendo terapia, com um homem, assim que me mudei para o Rio. Depois de dez anos, com 29 anos, decidi fazer análise freudiana, com uma mulher. Não penso em parar, não consigo me imaginar sem análise nos próximos 15 anos. Todo dia tem uma coisa nova para você descobrir.

Você disse recentemente que não faria nu frontal…

Até hoje nada me fez ter essa vontade de ceder. Para fazer por dinheiro, teria que ser muito. Por uma casa no Jardim Pernambuco (no Leblon, um dos locais mais caros do Rio) acho que daria para fazer. A única vez que topei fazer nudez, quando tinha 22 ou 23 anos, não aconteceu. Norma Bengell me chamou para refazer a cena dela em Os Cafajestes (o primeiro nu frontal do cinema brasileiro), no filme que dirigiria.

Como lida com a questão do envelhecimento?

Estou indo super bem. Tenho 35 e me sinto com 20, acabei de ter um filho e ele só me agregou, continuo usando as mesmas roupas. Às vezes, você se prende ao passado e fica difícil envelhecer, mas estou caminhando com a minha idade. Não vivo a paranoia da cara cair. Temos incríveis dermatologistas e maneiras de se manter bela. Acho uma loucura a mulher ter 60 anos e querer ter cara de 40.

Mas faria plástica?

Não chegou a hora, mas meu dermatologista falou que vou ter que fazer cirurgia de pálpebra antes do que normalmente se faz. Não tenho o menor problema com plástica e comecei a pensar em silicone. Tinha um peito de respeito, mas diminuiu demais, não me reconheço quando olho no espelho. Fora isso, sou super bem resolvida. Por isso, é tão importante fazer análise: você reorganiza as paranoias, os medos, a vulnerabilidade. Até parei de tomar refrigerante - uma das decisões da minha lista de 2013. Sou virginiana no último grau, faço lista de tudo: de ano, de vida, de compra, de afazeres semanais, de metas anuais. Também estão na lista pegar mais leve na internet e nadar com o Dom. Essa última não estou cumprindo - vou para a piscina e só quero ficar com ele. Pegar mais leve na internet estou super cumprindo. Desde que fiz a lista, só falei um palavrão no Twitter. Não aguentei, estava muito mexida com a história de Santa Maria.

A sua fama é de personalidade forte. Amadureceu?

Eu melhorei muito. Com 21 anos, amor, ninguém podia comigo. A gente acha que vai mudar o mundo, que pode e sabe tudo. Graças a Deus, vão-se os 20 anos e chegam os 30. Estou mais comedida, sei usar melhor as palavras para dizer o que sinto, o que é muito importante. Se você usa uma palavra errada, perdeu.

Mas você já bateu boca com muita gente pelo Twitter...

Não só pelo Twitter. Eu já bati muita boca na vida, já bati boca com polícia. Já bati boca e eu bato boca, uai. É um direito que eu tenho. Eu questiono.

Deixaria de chutar o balde por ser a Luana Piovani - nas redes sociais e na vida?

Não. Tanto é que nunca deixei. É um traço da minha personalidade. Vou ser aquela velhinha que vai entrar no ônibus e, se ninguém levantar pra eu sentar, vou falar: "Isso aqui é um absurdo, vocês não têm educação".

Teatro ainda é muito caro no Brasil. Qual é a maior dificuldade para fazer uma peça?

A gente já faz a conta com a meia-entrada, é de 85% a 90% da casa. Só deveria ter meia-entrada quem tem direito. Aqui é o país do jeitinho: o que tem de gente com a carteirinha e não é estudante... A meia-entrada come muito do nosso dinheiro, mas o governo é que tinha que nos ajudar a fazer teatro no Brasil, não apenas as empresas privadas.

Mas não existem as leis de incentivo, isso não ajuda?

Ah, e os teatros, cadê? E o incentivo, cadê? Tinha que haver uma maior movimentação no Brasil, tinha que ter teatro nas escolas, criar plateia. Teatro não é só entretenimento, teatro mostra o retrato cultural do país. Você acaba deixando tudo na mão do público. E o público, com essa vida difícil, só quer ver comédia. Você não precisa assistir Romeu e Julieta e Hamlet todo dia, mas, um dia, você precisa ter vontade de ver. Você precisa entender um pouco de Shakespeare. Mas eu compreendo a razão de o povo não querer entrar num teatro e assistir três horas de Hamlet: ninguém ensinou. Tem que ter teatro nas escolas, tem que ter música nas escolas, é óbvio. Mas, amor, não tem nem merenda nas escolas, não tem professor nas escolas, como eu vou exigir que tenha teatro? O que eu estou exigindo hoje do meu país é saúde e segurança. Minha grande luta é essa, apesar de ser atriz e produtora. Eu adoraria poder exigir teatro, mas, me pergunto: como vou exigir teatro se não tem hospital, Jesus Cristo?

O que você está achando da gestão de Marta Suplicy no Ministério da Cultura?

Eu já gostei porque ela fez um movimento bom quanto ao Museu do Índio (no Rio de Janeiro). Ela falou que devia ser tombado e eu estou na guerra, fiz até um vídeo. Não acho que tem que transformar aquilo em shopping e estacionamento. A gente tem mais é que ter praça, ter Museu do Índio, o prédio antigo tem que ser tombado. É nossa arquitetura, nossa história, p...! Índio não é invasor.

Pretende continuar engajada em causas sociais?

O que eu posso fazer pela minha sociedade, eu tento. Estou aqui girando os pratos. Faço novela, faço Superbonita (programa na GNT), produzo a peça, cuido do Dom.

E você também é engajada politicamente?

Não sou não, sabe. Na verdade, estou muito decepcionada com a política, mas sou uma cidadã exemplar, tento fazer o meu melhor, mesmo não sendo muito politizada. Tento fazer o que posso, tipo essa coisa de reivindicar, dizer as coisas que penso em relação ao Lula quando tudo foi acontecendo - o mensalão estava acontecendo e ele não viu nada, não sabia de nada; todo mundo roubou, todo mundo foi condenado e ele não viu nada. Eu questiono e falo mesmo. Acompanhei o julgamento do mensalão, sim. E acompanhei o caso fa juíza Patrícia Acioli. É o fim do mundo terem matado essa mulher, quero que eles morram na cadeia.

O que acha dos manifestos em favor dos condenados no julgamento do mensalão?

Eu acho que eles não têm vergonha na cara, amor. Veja o tanto de dinheiro que roubaram. E, enquanto isso, as pessoas continuam morrendo porque não há leitos nos hospitais... Isso é falta de vergonha na cara. Se eu cruzar com eles, atravesso a rua, não cumprimento, não dou a mão.

/ MIRELLA D'ELIA

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