Batman, um herói ao mesmo tempo acima e fora da lei

'Crônicas Vol. 1' traz história de mito do século 20 que leva gerações a procurar no céu um bat-sinal

Adriano Marangoni, especial para o Estado

02 Outubro 2007 | 12h30

Dentre uma variedade de clássicos dos quadrinhos sendo lançados no Brasil (só nos últimos meses foram mais de cinco), um deles guarda importância maior do que seus autores podiam imaginar. Batman: Crônicas vol. 1 (Panini, 194 páginas, R$ 48,90) é uma coletânea com as primeiras 16 histórias do Cavaleiro das Trevas, lançadas originalmente entre 1939 e 1940 nos Estados Unidos.   Espalhadas nos sebos ou nas mãos de colecionadores em versões raras, muitas vezes, em condições precárias é a primeira vez que tais histórias ganham tamanho tratamento editorial, com re-tradução dos originais, papel espelhado e capa dura.   Ícone da cultura popular há décadas, protagonista de cinco filmes, várias séries de televisão e desenhos animados, o herói foi criado para os quadrinhos por Bob Kane e Bill Finger como contraponto "humanizado" do messiânico Superman. Mais atento às necessidades cotidianas do que ameaças globais, Batman era o símbolo de racionalidade numa época marcada pela Depressão dos anos 30.   História de virtude   Se comparadas às HQ's mais recentes, as primeiras histórias de Batman são, obviamente, rudimentares. Os roteiros criados por Bill Finger são simples e mesmo repetitivos. Contudo, aquela obsessão e persistência características do herói (elevadas à última potência em Batman Begins, seu último filme), já eram marcas do personagem. A graça está em saber que os dois eram sinônimos de virtude nos Estados Unidos em 1939.   Num país em que o amor-próprio é intimamente ligado à capacidade de ganhar dinheiro, ficar à margem da economia depois da quebra da bolsa de Nova York em 1929 teve um preço psicológico alto, especialmente entre setores de baixa renda. A solução veio nas medidas chefiadas pelo presidente Franklin D. Roosevelt. O chamado New Deal foi a política de reorganização política cimentada pelo espírito da perseverança e da lei.   Do topo à margem   Nesse pano de fundo, Bruce Wayne, alter-ego de Batman, não sofre diretamente com os efeitos da Depressão. Simbolicamente está no topo do Estado como Bruce Wayne e à margem de sua estrutura como Batman. Quando não está combatendo o crime é um pacato bon vivant fumando cachimbo. Mas a maior parte dos seus inimigos eram aqueles que desafiavam uma ordem que tentava se restabelecer. Ladrões ou golpistas, os alvos desses vilões eram os honestos (e abastados) cidadãos de Gotham City. Sempre à frente da polícia, Batman encarnava o espírito da lei mesmo fora dela.   Então diluídos pelo senso comum, elementos como esses são mais aparentes com certo distanciamento histórico. Uma possível "ingenuidade" (que hoje seria quase leviana) que fica mais visível na hora em que o herói entra em ação. Particularmente violento, em suas primeiras aventuras, o mascarado é capaz de matar sem maiores remorsos. Num dado momento quebra o pescoço de um vilão indiscriminadamente. No máximo, um mal necessário na luta contra o crime.   Chocante especialmente ao se pensar que quadrinhos eram voltados para crianças, logo os autores foram estimulados a amenizar a imagem do soturno vingador. A solução veio na figura de Robin, na edição de Detective Comics n. 38, presente em Crônicas vol. 1. Ao se tornar órfão, o jovem Dick Grayson é tomado sob a guarda de Bruce Wayne, que reconhece no rapaz o próprio desejo de justiça e oferece-lhe o manto de Robin.   Se o fato de uma criança ser mostrada em ações perigosas enfrentando adultos armados não despertou qualquer crítica na época, levaria anos até a parceria de Batman e Robin se transformar em alvo de suspeita, ao menos, no que se refere à sexualidade dos personagens.   Paranóia em relação aos quadrinhos só iria se tornar oficial em 1954, durante comissões de investigação no senado americano. O resultado foi a quase ruína do herói, obliterado de seu caráter obscuro e violento e que culminaria no pastiche psicodélico da famosa série de TV, na década de 60.   Ainda distante do que viria, Batman: Crônicas vol. 1, portanto, é a chance de conhecer a origem daquele que se tornou um mito do século 20. Em sua forma bruta, está ali para ser reconhecido por cada um que já olhou para o céu a procura de um bat-sinal.

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