Baterista de Branford Marsalis triunfa

Ainda estudante de faculdade, Justin Faulkner foi a surpresa do show do saxofonista americano

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2011 | 00h00

CURAÇAU

A mesma contundência afro dos ídolos do pop, em toda sua complexidade jazzística, ressoou nos shows de Danilo Perez e Branford Marsalis. O saxofonista irmão de Wynton, conhecido desde os anos 80 como o sopro mais moderno da tradicional família Marsalis (embora também seja, hoje em dia, um tradicionalista), trouxe ao Caribe seu novo baterista, Justin Faulkner, que recentemente substituiu o magistral Jeff "Tain" Watts no quarteto. Como se diria em jargão de jazzmen, o rapaz quebrou tudo, e embora ainda esteja cursando a faculdade, já desponta como um dos expoentes da talentosíssima nova leva de ritmistas americanos, que inclui Jamire Williams (parceiro do trompetista Christian Scott) e Adam Cruz, integrante do trio de Danilo Perez, entre muitos outros. Branford, que seguiu para São Paulo e Rio, onde toca com seu grupo nos dias amanhã e na quarta, respectivamente, lidera a banda com sabedoria de um veterano. Sola economicamente, desenvolvendo discursos líricos nos moldes de John Coltrane e deixando espaço para o diálogo entre os outros músicos.

São nesses momentos que a estrela de Justin Faulkner brilha. Sua interação com o pianista Joey Calderazzo, dono de um suingue invejável, é explosiva. Nos diversos momentos em que Branford deixa a banda a sós, faíscas rítmicas da mais alta intensidade voam do palco. Como todo grande baixista, Eric Revis apita o embate, segurando a pulsação enquanto os dois decolam. Com Branford, Faulkner toca na veia neoclássica de Jeff Watts e Brian Blade, levando o característico tintirim dos pratos ao limite entre a abstração e a pulsação afro.

O trompetista Terence Blanchard, que tocou depois de Branford, subiu ao palco para deixar alguns excelentes solos e as canjas continuaram depois, quando o próprio Branford tocou com Sting, relembrando os tempos do disco Bring on the Night, em que o grupo do saxofonista acompanhou o astro inglês.

Por conta da liberdade inerente aos ritmos cubanos, o show do pianista panamenho Danilo Perez foi o mais audacioso da noite. Perez, que esteve no Brasil recentemente para acompanhar Wayne Shorter, em um show denso e complexo, equivocadamente desdenhado pela imprensa paulistana, segue uma linha parecida com a de Wayne em seu trio, investigando todas as possibilidades de sobreposição rítmica, como se fosse um pintor cubista entortando uma natureza morta. O alicerce dessas explorações é o baterista Adam Cruz, que extrapola a tradição cubana de todas as maneiras possíveis sem se afastar de sua essência - de modo semelhante ao que Justin Faulkner faz com o jazz. Estas explorações tomam formas instigantes. Ora se assemelham ao R&B, ora ao afrobeat e outros ritmos irmãos da diáspora africana. Ao fim de sua apresentação,

Danilo embarcou em uma exuberante leitura de Besame Mucho, que inicialmente pareceu ser um golpe baixo, uma tentativa de incluir o público em suas maluquices, mas enveredou para uma delicada interpretação de acordes esparsos e uma melodia exposta em notas que gotejavam no teclado como água nas árvores durante o acalmar de um temporal.

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