Batendo na porta do céu com Zam Salim

UP There é o longa de estreia que o diretor inglês, convidado internacional de mostra, apresenta hoje em São Paulo

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2013 | 02h09

Desde que chegou a São Paulo, na terça-feira à noite, Zam Salim não tem feito outra coisa senão caminhar. Andou pela Av. Paulista, foi ao centro (Downtown) e visitou o Viaduto do Chá. Zam é um diretor inglês de 40 anos. É o convidado internacional do 17.º Cultura Inglesa Festival, que vai até o dia 30 de junho. Ele mostra hoje seu primeiro longa, Up There, e na sequência conversa com o público. Vai debater o cinema inglês contemporâneo e o filme dele, em particular.

Embora seja estreante em longa, Zam possui uma extensa filmografia como diretor de curtas e vídeos. Up There conta a história de um sujeito que morre e fica preso no limbo. Tudo o que ele faz é para chegar ao céu - up there -, mas não é fácil. No processo, ele arranja um amigo. Tentam, juntos, arrombar as portas do paraíso. Up There, Lá em Cima, estreou no fim do ano passado na Inglaterra. Teve boas críticas, fez sucesso de público. Exibido em festivais nos EUA, teve boa acolhida.

"Não é um filme de zumbis", Zam esclarece. O mundo dos mortos interessa-lhe como metáfora para tentar entender o dos vivos. "Desde que comecei a apresentar o projeto, a birra dos produtores era sempre a mesma - como o público ia diferenciar os mortos e os vivos da história?" Foi uma coisa que Zam definiu com seu elenco, e com Burn Gorman, que faz o protagonista. Só para refrescar sua memória - ele foi Phillip Stryver em Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, de Christopher Nolan. "Queria que ele não expressasse nada, o que nem sempre é fácil para um ator. No limite, pedi-lhe que visse A General. Buster Keaton foi uma grande referência."

Keaton entrou para a história como o homem que nunca ria. Ela mantinha a cara impassível, como uma máscara inexpressiva. Toda a vida era transferida para os olhos. Zam admite que sua maior dificuldade foi achar um 'tom'. "A fase de escrita e a da realização foram tranquilas. A dor de cabeça veio durante a montagem." Como atingir o que ele pretendia? "A montagem é sempre o período mais estimulante para mim. Já fiz um curta em dois dias e depois passei dois meses montando."

Seus filmes nascem muito da observação das pessoas, daí que o prazer que ele tem em passear - simplesmente olhar - pode ser considerado também uma ferramenta de trabalho, em Londres como aqui.

"Já aprendi alguma coisa sobre São Paulo simplesmente observando as pessoas." O quê? "A cidade é muito dinâmica, não vejo muito espaço para o ócio e a contemplação."

Uma comédia realista sobre um morto? "Não queria exagerar, puxando para o fantástico." Zam faz uma ponte que parece insólita. Ele ama Ken Loach, por exemplo. Observa - "O realismo social de Ken tem origem no cinema checo dos anos 1960. Pergunte a ele. Ken ama Milos Forman, O Baile dos Bombeiros, Os Amores de Uma Loira. O que eu faço é voltar às origens, ao jovem Milos Forman, que me encanta", reforça ainda.

Pai de uma menina de 2 anos e meio, Zam diz que não tem tido muito tempo para ir ao cinema, descobrir novos filmes. Prefere os seus clássicos. Não viu nem o Batman de Nolan. Burn Gorman lhe foi (bem) recomendado, e ele já o conhecia da TV britânica. "Quero aproveitar a estada aqui - fico até sábado - para tentar ver filmes brasileiros", anuncia.

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