Batendo as botas

Nem todos os tiranos morrem mal. Franco e Pinochet morreram no aconchego do lar

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 02h00

Os brutos também amam, mas nem todos os tiranos morrem mal. Vários imperadores romanos, Hitler, Mussolini, Ceausescu, Hussein morreram como mereciam, porém Franco e Pinochet morreram na cama, no aconchego do lar e da família. Franco, aliás, demorou tanto a desencarnar, que Chevy Chase passou semanas abrindo o humorístico telejornal do Saturday Night Live com a seguinte manchete: “Espanha. O premier espanhol Francisco Franco permanece seriamente morto”.

Camarada Stalin também morreu na cama. Teve um treco na noite de 1.º de março de 1953, estava sozinho no quarto de sua dacha em Kuntsevo. Como de lá não saísse, sua camareira e um segurança, tomados de coragem, invadiram o aposento e o encontraram em decúbito dorsal, sem sentidos, a calça do pijama encharcada de urina. Forte gripe, diagnosticou o médico oficial do czar vermelho, convocado com menos pressa que os atônitos cardeais do Kremlin (Molotov, Malenkov, Beria, Kruchev, etc.), que não sabiam como nem por quanto tempo esconder da população o piripaque do sucessor de Lenin.

Armou-se um tremendo perrengue. Primeiro, porque não era uma gripe, e sim um AVC, amadoristicamente tratado com ventosas, compressas e clister de leite de magnésia. Segundo, porque os melhores médicos do país haviam sido executados ou estavam presos, por conta de um novo surto de perseguições a supostos inimigos do governo. Terceiro, porque a criação de vácuo no poder atiçaria, como atiçou, as ambições políticas dos mais graduados cortesãos do ditador.

Fiz esta semana um streaming do filme A Morte de Stalin (The Death of Stalin), ainda sem data para estrear no Brasil. Dirigido pelo escocês Armando Iannucci (da telessérie Veep), é uma sátira desabrida ao que aconteceu entre o jantar que precedeu o insulto cerebral do velho e desgastado Koba (apelido de Stalin) e sua morte, cinco dias depois, aos 67 anos. O ogro do Kremlin tinha tão sérios problemas de saúde que a justificável suspeita de assassinato por envenenamento não se sustentou por muito tempo. Do povão esconderam até o lugar onde de fato tombara o “Guia Supremo” da União Soviética. Era preciso manter a ilusão de que ele não só vendia saúde como varava a madrugada dando expediente em palácio.

Menos escrachada do que resultaria nas mãos do Mel Brooks de Primavera para Hitler ou do Tarantino de Bastardos Inglórios, a sátira de Iannucci fica ali entre o sarcasmo de Kubrick (Doutor Fantástico) e o deboche de Lubitsch (Ninotchka, Ser ou Não Ser) e Billy Wilder (Cupido Não Tem Bandeira).

As ótimas caracterizações, sobretudo de Simon Russell Beale como Beria e Steve Buscemi como Kruchev, e o afiado roteiro de quem se adestrou em telecomédias de situações, como Iannucci e David Schneider, injetam a dose certa de humor no caos que se instalou no Kremlin após o derrame de Stalin. A tragédia transfigura-se em comédia de erros, com situações e tiradas hilárias.

Estafado pelo esforço de tirar Stalin de cima do tapete e depositá-lo em superfície mais apropriada, Malenkov desabafa: “Preciso de uma vodca”. Ao que Bulganin, enojado com a urina do enfermo, retruca: “E eu preciso de água pra tomar um banho”. Em outra cena, quando o filho de Stalin faz uma exigência (“Quero discursar no funeral de meu pai”), Kruchev replica com outra impossibilidade: “E eu quero comer a Grace Kelly”. 

No filme, é o agressivo bilhete de uma jovem pianista que desestabiliza Stalin. Outra licença poética. Maria Yudina existiu de verdade, teve o pai assassinado pela repressão soviética, bateu de frente com o stalinismo até morrer (em 1970), mas não confrontou o algoz de seu pai com uma imprecação por escrito. 

Enquanto assistia ao filme, ocorreu-me a ideia de que algo análogo poderia ser feito com a invalidez e a morte do segundo ditador que nos impôs o golpe de 1964, o marechal Costa e Silva. Similaridades não faltam. Desde minudências possivelmente irrelevantes, como o fato de Stalin e o marechal apreciarem faroestes, até coincidências mais substanciosas, como o AVC de que ambos foram vítimas, a cortina de fumaça em torno do estado de saúde dos dois (modus operandi de todo regime fechado) e a encarniçada luta sucessória nos bastidores da ditadura, com eventuais lances de pura patuscada, como na sátira de Iannucci.

Se Maria Yudina não enviou a Stalin aquele ou qualquer outro bilhete fatídico, aqui o general Moniz Aragão fez chegar a Costa e Silva uma carta com acusações de corrupção e nepotismo, que provocou no destinatário uma crise de hipertensão. Nosso tirano também era um poço de doenças intratadas ou cuidadas com displicência. Hipertenso, frequentemente resfriado, deu vários alertas neurológicos, como súbitas afasias e brancos de memória, tratados como sintomas de gripe pelo entourage médico da presidência. O chanceler Magalhães Pinto, ao sair de uma audiência com o marechal, foi categórico: “Não é gripe”. Um jaleco do Planalto insistia: “É só estafa”. Logo o ditador estaria mudo e paralítico para sempre.

Que cenas burlescas não podiam ser criadas a partir das jogadas políticas dos milicos que, quais abutres, serviam de interface entre o presidente (ou o que dele sobrevivia vegetativamente) e a imprensa e o eleitorado. Uns queriam protelar sua presença no cargo, outros, mais sensatos ou pragmáticos, preferiam sua substituição imediata, mas não pelo civil Pedro Aleixo, o vice decorativo. Todos, sem exceção, queriam o trono do moribundo marechal. Afinal substituído por uma troica fardada, representando as três Forças Armadas, Costa e Silva nunca se recuperou e bateu as botas em 17 de dezembro de 1969, 108 dias depois de afastado do poder. Tinha 70 anos.

O segundo volume (A Revolução Escancarada) da história da ditadura militar, escrita por Elio Gaspari, é uma mina de incidentes ridículos envolvendo os galões do ministro do Exército Lyra Tavares, do chefe do Gabinete Militar Jaime Portela e de outros linhas-duras, como Albuquerque Lima, Syseno Sarmento e Antonio Carlos Muricy.

E ainda havia, de bônus, a figura folclórica de dona Yolanda Costa e Silva. Ela teria dado um sabor especial à vida de Stalin e tornado a sátira de Iannucci ainda mais divertida.

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