Bate-papo quente

Autores Fernando Morais e Leandro Narloch se desentendem durante debate

MARIA FERNANDA RODRIGUES OLINDA, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2011 | 03h07

Fernando Morais, Leandro Narloch e Samarone Lima participaram na segunda-feira da mais animada e polêmica mesa desta edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), que terminou ontem em Olinda - e nem mesmo as batatas cubanas ficaram de fora da discussão.

O tema proposto pelo curador Mário Hélio era "América Latina para o Bem e para o Mal" e Cuba dominou boa parte da conversa, com defesas apaixonadas de Fernando Morais, que fumava charuto e usava um boné do MST; desiludidas de Samarone Lima; e inexistentes de Narloch. A segunda parte do debate ficou concentrada em criticar os dois best-sellers de Narloch, o Guia Politicamente Incorreto do Brasil e o Guia Politicamente Incorreto da América Latina (Leya). "Desde o começo pensei que a mesa seria quente, mas em nenhum momento achei que ela seria tão crua", disse o curador.

Quem deu a largada foi o moderador Vandek Santiago. Ele questionou Narloch sobre as fontes usadas na produção do livro, entre as quais estavam "as más línguas" em capítulo sobre o relacionamento de Perón, na Argentina, com jovens meninas.

Morais se juntou ao debate quando Narloch disse que "vários" cubanos desertaram durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007. "Foram dois", respondeu. Em outro momento, Narloch afirmou que as conquistas nas áreas econômica e de saúde não valeram a pena para Cuba, o que também irritou Morais. "Essa fala me lembrou Nelson Rodrigues, que era um grande dramaturgo e um péssimo político, e que disse que preferia a liberdade ao pão. Pergunte a uma mãe que está enterrando o filho de 5 anos por desnutrição o que ela pensa disso", disse Morais, que tinha acabado de citar dados da Unesco que mostram que Cuba tem o menor índice de mortalidade infantil entre os países concentrados do sul dos Estados Unidos à Patagônia.

Mais um pouco de conversa sobre liberdade e Cuba e a atenção se voltou para Narloch. Fernando Morais, que não leu os livros mas acompanhou algumas entrevistas do autor, mencionou o caráter marqueteiro das obras. Ele lembrou que o autor chegou a comentar em uma dessas entrevistas que tinha começado a coleção, que terá um novo volume sobre a história do mundo, para ganhar algum dinheiro. "Estou em pânico. Passei a faculdade lendo Fernando Morais e agora estamos quebrando o pau", tentou descontrair.

"Leandro Narloch se reconhece como uma pessoa de direita. Em um país onde Paulo Maluf se diz de centro-esquerda, alguém de 30 e poucos anos se assumir de direita é de muita honestidade política", comentou. "Mas seus livros deveriam ter uma errata dizendo que eles se chamam Guias Politicamente Corretos, porque estão remando a favor da maré e absolutamente a favor do vento que sopra na imprensa brasileira, especialmente na revista Veja", completou.

Samarone Lima, que trazia um dos exemplares cheios de "post-it", disse que encontrou uma série de problemas no livro, mas que o principal dizia respeito ao capítulo dedicado ao general Augusto Pinochet. "É de uma inconsistência dolorosa. Nós, jornalistas, trabalhamos com fontes. Você não pode escrever sobre Pinochet usando como fonte um livro lançado pelo governo golpista", disse Lima.

Enquanto ele procurava outra passagem, Narloch, já sem graça com a repercussão que seu trabalho tinha ganhado naquele painel, brincou: "Acabou, não dá mais tempo". Mas deu. Ainda desconfortável, perdeu o fio da meada e foi vaiado quando, mais calmo, também citou uma frase que atribuiu a Nelson Rodrigues: "Quem não é socialista com 20 anos não tem coração. Quem é com 40 não tem cérebro".

Foi então a vez dele contestar uma informação publicada por Morais sobre o episódio das larvas jogadas pelo governo americano nas plantações de batatas em Cuba. "Use um pouco do dinheiro que você ganha com direitos autorais e vá até os Estados Unidos checar isso. Nós não vamos ficar aqui brigando pelas batatas cubanas", finalizou Morais.

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