Batalhas sangrentas da Guerra do Contestado

Estudo retoma o conflito armado do sul do Brasil com pistolagem ao estilo da conquista do velho oeste americano

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2013 | 11h42

Um norte-americano com revólver na cintura, como nos gibis de Zorro e Cavaleiro Negro, os heróis de quadrinhos do Velho Oeste dos EUA – só que no interior de Santa Catarina. A cena está no livro A Sangrenta Guerra do Contestado, do escritor Paulo Ramos Derengoski, que reproduz fotografia do texano Bob Helling, um gerente da madeireira Southern Lumber Corporation, empresa dos EUA, armado, jogando pôquer e bebendo uísque no sul do Brasil do começo do Século 20.

A madeireira de Helling foi pivô de um malparado episódio, dramático e sangrento, da história da formação brasileira, a Guerra do Contestado (1912 a 1916). O conflito ocorreu em área da região central de Santa Catarina e até hoje tem feridas abertas na região. Em fevereiro de 2012, os jornalistas de O Estado de S.Paulo Leonêncio Nossa e Celso Júnior publicaram caderno especial sobre o caso olhando a guerra com os olhos dos Meninos do Contestado, título do trabalho.

Os repórteres colheram depoimentos de moradores, que à época eram crianças, sobreviventes de um tempo no qual a lei e a justiça eram sacadas do coldre. Os jornalistas mostraram que, um século depois, aquelas vítimas ainda não obtiveram nem reconhecimento nem reparação pelo sofrimento imposto às famílias pelo Estado.

No livro do jornalista e escritor Derengoski, editado agora pela Dioesc, de Florianópolis, o Contestado aparece por outro ângulo. O autor descreve dramáticas batalhas em quatro anos de lutas, muitas delas de puro banditismo (de ambos os lados), entre grupos de revoltosos locais e as forças legalistas.

Os excessos das tropas são reconhecidos em documentos oficiais do Exército, que depois de arrasar Canudos, no Nordeste, foi deslocado com canhões – e até aviões – para massacrar adversários da exploração madeireira na região onde operava Helling, personagem destacado por Derengoski.

Drama e fé. Rico em fotografias (embora a impressão não seja muito clara) e mapas, o livro de Derengoski lembra o messianismo presente no cenário bruto daqueles primeiros 15 anos do Século 20, e conta o drama de caboclos que tinham projetos de comunidades autônomas, gente amparada somente pela fé em figuras carismáticas como a do “profeta” José Maria, ex-militar do Paraná, curandeiro, um dos principais líderes revoltosos. O “profeta” foi assassinado num dos primeiros combates do Contestado, em outubro de 1912. Derengoski conta que José Maria foi morto na mesma batalha na qual o coronel paranaense João Gualberto, comandante da tropa do primeiro grande ataque aos revoltosos, ao cair do cavalo, “é retalhado no aço da caboclada”.

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