Bataclan

À noite lá estava o Papai Noel batendo na nossa porta, e sendo recebido por mim, minha irmã, um primo e várias crianças da vizinhança, todos de boca aberta

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 02h00

Não sei até que idade acreditei em Papai Noel. Lembro da vez em que anunciaram que naquele ano receberíamos o Papai Noel em casa. Ele não deixaria apenas os nossos presentes, misteriosamente, como das outras vezes. Apareceria. Em pessoa!

À noite lá estava o Papai Noel batendo na nossa porta, e sendo recebido por mim, minha irmã, um primo e várias crianças da vizinhança, todos de boca aberta. Era ele mesmo, não havia dúvida. A roupa vermelha e grossa, o gorro, a barba branca, as bochechas rosadas – e o saco. O maravilhoso saco, de dentro do qual tirou nossos presentes – uma bola de futebol e um revólver de espoleta para mim, como ele sabia que era o que eu queria?! – depois deu tapinhas na cabeça de cada um, disse qualquer coisa e desapareceu.

Mais tarde entrei na cozinha e dei com o Papai Noel sentado, conversando com a cozinheira e tomando uma cerveja. Tinha tirado a máscara. Reconheci a cara suada: era o Bataclan, uma figura folclórica de Porto Alegre, um negro que fazia propaganda – “reclame”, chamava-se então – na rua. Não lembro como eu racionalizei a revelação. Se deixei de acreditar no Papai Noel ali mesmo, se passei a acreditar que o Papai Noel, quando não estava em serviço, era o Bataclan, e vice-versa, ou que... Talvez não tenha concluído nada. O bom de ser criança é que não se precisa racionalizar.

Só na cama, mais tarde, abraçado na bola nova e com o revólver embaixo do travesseiro para qualquer eventualidade, pensei nas alternativas. 

1. Bataclan e Papai Noel eram a mesma pessoa. Bataclan era o Papai Noel sem máscara, Papai Noel era o Bataclan mascarado. Mas como o Bataclan, que chegara de táxi e não tinha sinal de asas, se locomovia para atender todas as crianças do mundo? 

2. Bataclan e Papai Noel se alternavam no papel, Bataclan distribuindo presentes entre as crianças de Porto Alegre, uma equipe de Papais Noéis – ou de Bataclans – servindo o resto do mundo. Improvável. Faltava explicar a ausência de trenó, renas e qualquer outro meio de transporte.

3. Bataclan era Bataclan e tinha só sido contratado pelo meu pai para se vestir de Papai Noel e alegrar as crianças. Não previam que eu entraria na cozinha a veria o Bataclan, ou o Papai Noel, tomando cerveja com a empregada. Foi essa alternativa que me adormeceu. 

Na manhã seguinte acordei com uma sensação de gratidão pelo que meu pai tinha feito para nos alegrar e sentimento por ter flagrado o Papai Noel – ou o Bataclan – sem máscara e estragado a ilusão. Acho que foi naquela manhã que comecei a ficar mais velho. 

 

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