Bastidores de uma carreira

Exposição vai trazer até filme argentino pouco conhecido de Regina Duarte

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h12

São inúmeras e saborosas as histórias de Regina Duarte que se destacam na exposição sobre sua carreira, que será aberta em agosto - desde o cartaz para uma campanha de sorvetes em 1964 até a viagem que fez pela companhia de Paschoal Carlos Magno, anos depois, a Porto Alegre, acompanhado de um jovem ator que se exercitaria em outros palcos, José Serra. "Ele viajou com o grupo da Poli e era razoável como ator", brinca Regina, limitando aí seus comentários sobre política - ela não pretende mais comentar a polêmica de 2002 quando, apoiando Serra para a presidência, revelou seu medo caso o concorrente, Lula, vencesse a eleição.

A exposição, promete, será completa, graças ao empenho dos organizadores Ivan Belangero e Eduardo Bodstein. "Eles tiveram esse sonho que, no início, eu temia parecer autoglorificação", comenta. "Acabei me envolvendo com o trabalho, que vai unir o grande acervo deles com o meu e trará preciosidades como um filme que fiz na Argentina, El Hombre del Subsuelo, em 1981. Graças à internet, descobrimos um fã que conhecia alguém da equipe que disponibilizou uma cópia." Em São Paulo, a exposição ficará no Liceu de Artes e Ofícios.

Os grandes momentos, porém, surgiram na tela pequena. Eleita Namoradinha do Brasil graças ao sucesso da novela Minha Doce Namorada, de 1971, carregou a alcunha durante anos até mudar radicalmente sua imagem em 1979, com o seriado Malu Mulher, no qual interpretava uma desquitada. "Foi uma grande sacada do Boni (o então vice-presidente de coordenação estratégica da Globo, José Bonifácio Sobrinho) e do (diretor) Daniel Filho, que observaram triplicar o número de desquites no Brasil naquela época. Surgia uma nova mulher", conta Regina, cuja carreira sofreu uma decisiva mudança de curso.

Recém-separada, ela descobriu na série uma forma de fazer uma catarse de seu "momento histórico". "Foi um privilégio usar a ficção para isso, pois a maioria era obrigada a dissimular. Daniel temia enfrentar o preconceito que existia contra mulher separada, mas eu me senti realizada."

Também espetacular foi o sucesso como a viúva Porcina, a "que era sem nunca ter sido", em Roque Santeiro (1985). Homenagem assumida a Dercy Gonçalves, o papel da irresistível fogosa tornou-se um estigma, a ponto de Regina temer nunca se desvencilhar dela. "Era um personagem muito saboroso, mas tive medo no início de me atirar completamente."

Situação totalmente inversa aconteceu no ano passado, no remake de O Astro. No papel de Clô Hayalla, mulher frustrada por viver sob a mão pesada do marido, Regina voltou a assombrar público e crítica com uma atuação desbragada, marcada por gritos e choros. "Eu vinha de uma novela do Manoel Carlos (Páginas da Vida, de 2006), que exigiu tom mais abaixo. E, de repente, eu me deparo com o papel de uma mãe que, já no primeiro capítulo, vê o filho ficar nu para denunciar a carência de paternidade e acaba internado numa clínica. Vivendo um casamento já corrompido, essa mulher pira. Assim, eu me vi diante de uma tragédia pura, como se interpretasse um personagem dos filmes de Michael Cacoyannis, como Ifigênia ou Fedra."

O desafio continua ao assumir a direção da peça Raimunda, Raimunda. Regina conta ter testado três diretores, mas não sentiu o devido entusiasmo pelo texto. "Aceitei a tarefa por já conhecer bem a personagem e criei uma direção sem método, na intuição. Lembrei dos meus mestres Antunes Filho, Flávio Rangel, Paulo José." Basta? De forma alguma: ela acabou de filmar, em sete dias, o longa de baixo orçamento de Rafael Primot. O título é sugestivo: Gata Velha Ainda Mia.

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