Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

Bassem Koussa deixou a Síria por causa da guerra e montou restaurante no Brasil

Imigrante implementou a ideia de empregar refugiados sírios e palestinos

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2022 | 12h07

“A cozinha é o meu lugar preferido porque tem o cheiro da roupa da minha mãe”, conta o sírio Bassem Koussa, 32 anos, dono do restaurante Zingo & Ringo. No Brasil desde 2015, ele fugiu da guerra em seu país para continuar lutando pelos seus sonhos. Hoje, Koussa ajuda outros refugiados a se reconstruírem longe de casa, empregando-os e ensinando o Português.

Koussa morava em Ain Halaquim, uma pequena vila no noroeste da Síria com não mais de 2 mil habitantes. A mãe, Nawal Saad, era professora e também trabalhava preparando almoços e jantares para festas e casamentos - sendo reconhecida pelo seu quibe assado na brasa. “É o tempero deste quibe que ficava impregnado nas roupas da minha mãe e agora eu sinto na minha cozinha”, lembrou.

Aos 12 anos, Koussa se apoderou da cozinha de casa. “Eu me saia tão bem que me deixavam responsável pelo almoço”, disse. A experiência familiar fez com que crescesse no garoto a vontade de seguir carreira como chef. “Infelizmente, não é uma profissão levada a sério no meu país. Tive que buscar outro curso e fui fazer engenharia.”

Quando estava na faculdade, a guerra começou. Em 2011, a reação do governo de Bashar al-Assad ao avanço da chamada Primavera Árabe deu início ao conflito. Até 2020, a estimativa era de pelo menos 600 mil mortos. Neste contexto, Koussa deixaria a universidade para trabalhar como assistente social na ONU. “Eu prestava assistência para pessoas dos dois lados da guerra. Entrava em lugares que sequer o governo podia entrar”, contou. “Mas perdi muita gente próxima. Perdi amigos, primos... Aquilo estava me consumindo. Eu amava o trabalho na ONU, mas me consumia por dentro. Além da guerra, máfias locais cresceram, a crise econômica explodiu e ficou impossível sonhar naquele ambiente. Eu tinha sonhos ilimitados e estava sem poder realizá-los.”

Em 2015, justamente quando a Rússia entrou no conflito (posicionando-se ao lado do governo de Bashar e contra o Estado Islâmico e os rebeldes), Koussa decidiu que era hora de partir. Segundo ele, as opções eram Venezuela, Argentina e Brasil. “Escolhi o Brasil porque achei que aqui as possibilidades eram melhores e a comunidade árabe mais organizada”, disse.

Sem avisar à família, viajou para o Brasil com pouco dinheiro no bolso e sem falar uma palavra de Português. Já na saída do aeroporto de Guarulhos impressionou-se com a quantidade de famílias que viu morando nas ruas. “Pensei que o meu destino poderia ser igual ao deles”, lembrou. Na cidade, não perdeu tempo e seguiu para os locais onde sabia que encontraria a comunidade árabe. Com nome e contato escritos em pedaços de papel, foi para as regiões da Santa Ifigênia e 25 de Março distribuí-los. Em três dias, ele conseguiu um emprego em uma empresa de importação e exportação. Ele ganhava cerca de R$ 1,2 mil por mês e sua função era empacotar mercadorias.

Aula particulares

Assim que se estabeleceu, procurou a ONG BibliAspa. Ele queria participar de programas que ajudassem outros refugiados como ele. Com a facilidade que sempre teve em aprender idiomas, começou a ensinar Português. Paralelamente, também começou a dar aulas particulares de árabe para brasileiros. Com o dinheiro, decidiu realizar seu sonho maior: abrir um restaurante. Em 2019, em sociedade com um amigo também refugiado, inaugurou a primeira versão do Zingo & Ringo já em Pinheiros. Aliás, o nome do restaurante é uma expressão muito comum na Síria para falar de duas pessoas que não se desgrudam, dos amigos ou parceiros.

Logo no início do empreendimento, Koussa implementou a ideia de empregar refugiados sírios e palestinos. “Não queria que eles passassem o que eu passei. Queria que tivessem trabalho justo, com carteira assinada e pagamento de horas extras.”

Com cinco meses de funcionamento, o sócio desistiu do negócio e pediu o investimento que tinha feito de volta. Para não quebrar, parcelou sua dívida com o amigo. Quando, finalmente, terminou de pagar aconteceu aquilo que todo mundo já deve estar desconfiando: a pandemia da covid-19.

Ele fechou o restaurante. Como ainda não estava preparado para trabalhar com entregas, precisou contar com o apoio dos funcionários. A nova operação foi um sucesso e o delivery mudou o status do restaurante. No início de 2022, com a reabertura dos restaurantes, o Zingo & Ringo foi para um espaço maior, na Rua de Pinheiros, 537. Koussa já não pensa em voltar. Com o que ganha ajuda a família (que ainda mora na Síria) mensalmente. Ainda assim, sonha em trazer a mãe para o Brasil. “Ela teve problemas sérios de saúde. Ficou muito ruim. Estou tentando trazê-la para perto.” 

 

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