Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Baselitz recria seu passado artístico

Na Estação Pinacoteca, 29 telas novas do alemão perpassam sua trajetória

Camila Molina,

07 de dezembro de 2010 | 18h03

O pintor alemão Georg Baselitz está preocupado com a velhice. Aos 72 anos, um dos mais famosos de seu país, ele está em São Paulo para a inauguração de uma grande mostra que reúne 29 telas, realizadas entre 1998 e 2010 - algumas, saídas diretamente de seu ateliê, nunca vistas -, que se inaugura hoje para o público na Estação Pinacoteca. Consagrado, controvertido, volta ao Brasil depois de participar da Bienal de São Paulo de 1975. A exposição, com curadoria de Paulo Venancio Filho, torna-se, apesar de apresentar suas Pinturas Recentes (título da mostra), uma espécie de retrospectiva condensada do artista - porque nela estão as obras de seu projeto Remix, no qual ele retomou, revisitou, repintou obras de sua carreira, iniciada na década de 1960.

 

Sendo assim, estão pinturas que remetem à marca de Georg Baselitz, a de pintar, logo em 1969, figuras de cabeça para baixo. Mas há mais ainda, sua maturidade, frescor. "O Remix é uma coisa de jovem, acho até que ele usou ironia", diz Paulo Venancio Filho, que há cerca de cinco anos conversou com o artista para a realização da mostra - inicialmente, um projeto para Porto Alegre, como afirmou Baselitz. A complexidade da produção do artista, que nasceu na então Alemanha Oriental, está em toda a exposição. "É importante ver como ele mantém a figura humana como uma luta em três fronts - com o realismo socialista, com o pop e com o minimalismo", afirma o curador. A seguir, trechos da entrevista que Georg Baselitz concedeu ao Estado na Estação Pinacoteca.

 

1) O sr. participou da concepção da exposição, que apresenta somente suas obras recentes?

Tudo começou com um conceito de mostra para Porto Alegre. Conversávamos sobre esse assunto há quatro anos. Não queríamos fazer nenhuma retrospectiva, mas expor quadros novos, tanto que a maioria deles estava ainda no ateliê. Outros, são os que foram comprados aqui no Brasil recentemente. Então, há uma ideia prática por trás do projeto dessa mostra. Nunca há muito dinheiro e a gente tenta facilitar as coisas. Esse não é um problema para mim, porque fiz novas pinturas e remixei as da década de 1960.

 

2) Poderia explicar o projeto 'Remix'? Por que revisitar obras antigas?

Sempre me interessei intimamente pela produção antiga de artistas. Há exemplos muito tristes e também tenho vários criadores que são modelos para mim, inspiração. Otto Dix, que teve um destino horrível na Alemanha, com a 2.ª Guerra Mundial; Edvard Munch, que não teve esse destino, mas continuou seu trabalho até idade avançada. De Kooning, que por causa de seu adoecimento, seu Alzheimer, trabalhou apesar da doença. Interessei-me muito por esses destinos e fiquei pensando como poderia dar a volta, contornar essa situação. Porque a pressão sobre as quais os artistas sofrem ou que eles mesmos se colocam é muito forte. E tem um momento que há tanta pressão que você se fecha. Então, praticamente, fechei a porta e não deixei ninguém entrar para tudo se desenvolver. Percebi que em meu passado muitas coisas eu não havia percebido, não havia trabalhado, não havia digerido dentro dos quadros. Que uma força motriz no passado foi a agressão. E, quando isso acontece, não necessariamente sai coisa boa de seu trabalho. Então, você pega essas coisas novamente - a agressão se foi - sem pressão e fica somente a ideia artística. E funcionou. Foi uma ideia muito conceitual. As obras que são grandes altos do Munch, ele as pintou 27 vezes ao longo de sua vida, não porque as havia vendido, mas porque era importante para ele. E esse é um bom motivo para se fazer uma coisa dessas. Existem outros exemplos: Andy Warhol fez uma coisa semelhante com suas serigrafias, mas ele não sabia quando ia morrer....Essas observações são importantes. Artistas não só têm exemplos que os inspiram, mas dependências, e essas dependências não podem ser demonstradas, a gente tem que esconder. Com certa idade, com maturidade, você pode colocar como uma citação. E esse fenômeno pertence aos novos tempos. Richard Prince fez muitas vezes isso. Damien Hirst também.

 

3) 'Remix', afinal, é um processo de exercício, de autocrítica ou relacionado à memória?

É um processo sentimental de memória, como escrever um diário e o reler. Isso pertence ao dia-a-dia.

 

4) Sobre a marca atrelada à sua produção, as figuras de cabeça para baixo, como é revisitá-las no projeto 'remix'?

É uma coisa que não dá para explicar. Não é uma doença. Mas é um processo intelectual de repensar e comecei praticamente por causa da idade. Você tem que se programar: como eu me posiciono à idade? Como você se vira quando as dificuldades aumentam? Para isso, você precisa se colocar, se preparar. Isso diz respeito ao formal, mas também ao conteúdo das coisas. Rothko se matou quando tinha certa idade e problemas alcoólicos. E ele tem uma obra muito consciente da idade, que nunca apareceu publicamente porque poderia parecer uma caricatura do que ele havia feito anteriormente. Os quadros dele respiram, as cores dele, vibram na modulação. Na verdade, ele fez as obras com as cores mais coloridas ainda, que não têm nada a ver com o que fazia antes, como se explicasse aos netos seu sistema de pintar. E esses quadros são maravilhosos, mas ninguém os conhece porque os herdeiros acreditam que o mercado está quebrando. Quando Picasso fez suas últimas obras, foi criticado. Ela ficou fechada até uma exposição na Academia Real de Londres colocar no centro os esses seus últimos quadros.

 

5) Como então o sr. se relaciona agora a "agressão" de outro momento, como disse, que não existe mais, e o contexto atual?

Arte tem a ver com um posicionamento. Na Europa, o artista tem de fazer um comentário sobre o mundo. E se este mundo, na Alemanha, na política, era ditatorial, então seu comentário é fatal. Nessa briga de saber melhor se você pertence à religião correta ou não, por muito tempo, você se perde. E é uma briga que desgasta, demanda muita energia à toa. Chega um momento, mais tarde, que você percebe que foi enganado, que foi mal-educado. Levei 25 anos para entender que eu era totalmente independente, que ninguém quer nada de mim, que posso fazer o que bem entender. Se eu achar um comprador, não preciso fazer comentário. Não preciso lidar com ministros, dizer se um partido é bom e outro ruim, nada disso. Quando comecei, Pollock, Warhol, Rauschenberg, esses grandes artistas já existiam e eu era um pequeno bobo alemão pobre. Esperei 40 anos até pintar um Lichtenstein. E essa situação é necessária. São quadros meus, você não diria que é um Lichtenstein.

 

6) Então, o artista não precisa mais ter esse posicionamento, ainda mais político?

Você não pode defender um partido político, tomar um lado partidário. Os políticos são os outros, não os artistas. Porque senão você está sempre do lado errado mesmo sendo comunista - ainda mais agora, se você for comunista, pelo amor de Deus! Temos um grande poeta, Günter Grass, com mais de 70 anos, e tem de dizer que fez parte da SS. Isso é horrível.

 

7) Como então o artista passa sua mensagem política, já que todo ato criativo pode ser visto como político? Em seu caso, que quis já no início de sua carreira ser figurativo contra o abstracionismo, esse era um ato político naquela época?

Houve uma briga entre os abstratos e os figurativos, uma briga acadêmica na Alemanha. Os abstratos estavam na Alemanha Ocidental, os figurativos, na Oriental. Uns eram capitalistas e outros eram comunistas. Foi maravilhoso! Os comunistas pintavam feito os russos, e os capitalistas, feito os franceses. E ninguém pintava como o alemão. A Bienal (de São Paulo, em sua 29.ª edição, em cartaz atualmente até domingo, dia 12) ouvi dizer que é política. É sempre bom ver alguma coisa sobre o que dizer, seja sobre a desigualdade. É sempre bom ter um ponto político no qual discursar, mas no fim das contas, é idiota porque você mesmo acaba perdendo. Eu sempre soube que no mundo temos de ser objetivos. E essa é a nossa grande catástrofe. Você tem de ser subjetivo o quanto mais você pode. Tem de se disciplinar, não pode contar com o objetivo. E essa filosofia não está na moda hoje. Ela só é usada por terroristas. Mas eles sempre têm a religião como pano de fundo e os artistas não têm Deus como pano de fundo, nem papa, nem Martin Luther King... Isso não é nada.

 

8) Recentemente, vemos uma retomada de jovens pintores por uma figuração baseada na fotografia, uma vertente muito contemporânea. Qual sua opinião sobre isso? E usando essa ideia como pano de fundo, gostaria que o sr. relacionasse esse dado agora com a época em que, como disse, a abstração representava uma vertente política e a figuração, outra. Era tudo muito claro e delimitado?

Naquela época, os aspectos políticos eram fáceis. Tinha os grandes chefes que dirigiam o país, tinham os russos e os americanos. E a doutrina mesmo da libertação. Fiz um quadro e pensei meses depois: Estou mentindo, porque não pertenço àquela camada, não pertenço a essa sociedade, eles me enojam. Ou são burros, ou são brancos, ou negros, ou qualquer coisa. Vi que a minha coisa era outra. Cheguei ao ponto onde estive.

 

E a doutrina venceu, afinal. Não existia mais a pintura na Alemanha Ocidental. De repente, artistas americanos que faziam Pop Art, faziam telas com molduras. Era um trabalho crítico com a sociedade de consumo. Gerhard Richter também pintava à maneira Pop na Alemanha, mas nós não tínhamos uma sociedade de consumo. Estávamos com fome. Eles viram alguma coisa que os melhores faziam e imitaram. Às vezes, a gente se sente incomodado com aquilo, mas funcionou. Por muitos anos fui professor na faculdade e os jovens perguntavam: O que fazer, já que tudo foi feito? Por favor, comecem do zero, dizia, sejam contra mim. Disso surgiu alguma coisa, artistas que evoluíram e são interessantes. Ninguém contou que haveria novamente a pintura, e a mais variada e interessante. Não sei responder o por que dessa figuração recente. Acho super interessante.

 

9) Como o sr. vê a relação arte e mercado?

Isso é interessante porque os jornalistas dizem que os artistas estão ainda muito ligados ao mercado e criticam isso. E, na verdade, é o contrário. Muito estranhamente, a única disciplina independente são as artes plásticas porque elas se colocam no mercado e não são subvencionadas pelo Estado. Não temos teatro independente, literatura independente, nem peças novas. Sobre isso vocês deveriam pensar. Espera-se sempre algo clássico na música, no teatro. Colocam algo que agrada a todos, como Mozart, mas ninguém compra hoje um Rembrandt.

 

10) Mas existe um fetichismo diferente em relação às artes plásticas?

Mas isso é o resultado da arte. Comecei na década de 1960, quando havia uma esperança de dinheiro, mas não com quadros. A coisa mudou, mas também porque os quadros têm um valor capital, como imóveis, têm uma relação muito importante com herança. Isso é um fato. É interessante porque motiva. E não há mais autores teatrais com coisas novas.

 

11) É uma visão pessimista sua sobre as outras áreas artísticas?

 

Não, é um fato. A subvenção é que mata! Então essa coisa de incentivar é que mata as artes. O Estado tentou acalmar todos os ânimos como se fosse uma bênção e isso subvenciona a todos. Quando se vai a ópera, só se vê Mozart. Não há comparação, não há música nova, ela não consegue sair.

 

12) Por que fazer uma pintura em escala grande? Isso é, afinal, um jeito alemão que não existia antes?

Sarcasticamente falando, antes se dizia que um quadro era feito para se pendurar em cima do sofá. Eu e outros artistas dissemos que não: vamos fazer de um tamanho tão grande que não vai dar para entrar com ele pela porta. Anselm Kiefer também faz suas obras de um jeito tão pesado que você não consegue nem carregá-la. Então tem que ter algo de legítimo.

 

13) O sr. se considera uma figura polêmica?

Diz-se de mim que não sou politicamente correto, que sou muito de direita e simpatizo com isso. Que sempre fiz coisas que eram questionáveis, mas dessas histórias todas, penso: Então vamos falar de teatro, música, etc. para ver se é verdade?

 

 

GEORG BASELITZ: PINTURAS RECENTES

Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66, Luz, tel. 3335-4990.  10h/18h (fecha 2ª). R$ 6 (sáb. grátis). Até 30/1.

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