Baseado em graphic novel, ‘O Palácio Francês’ satiriza figuras do mundo real

Grande crítico, incansável defensor do filme B norte-americano – como assinala Jean Tulard no Dicionário de Cinema –, Bertrand Tavernier não surpreendeu apenas pela segurança ao se tornar diretor. Sua obra pauta-se pela diversidade de gêneros, e também é uma das mais extensas, entre os cineastas de sua geração. Volta e meia Tavernier se exercita no filme de época – Que la Fête Commence..., Um Sonho de Domingo, A Filha de D’Artagnan, Capitão Conan, La Princesse de Montpensier –, mas a cena contemporânea lhe interessa no que tem de mais intenso e violento. Com A Isca, ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Com O Palácio Francês, tenta algo diferente – a comédia sobre os corredores do poder – e sai-se muito bem.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2014 | 21h00

 

Pelo menos na sessão da noite de segunda-feira, no Espaço Itaú, o público riu mais do o que assistiu a Copa de Elite com o repórter, e olhem que o filme de Victor Brandt nasceu com a intenção declarada de fazer paródia com os grandes êxitos do cinema brasileiro. O Palácio Francês está sendo lançado em muitos países como O Ministro Francês. O título brasileiro vai diretamente ao ponto. O original chama-se Quai d’Orsay, como o palácio que abriga o ministério francês das Relações Exteriores. Quai d’Orsay é também como se chama a graphic-novel que serviu de inspiração para Tavernier. Grande sucesso na França, vendeu 80 mil exemplares somente no país, consagrando a parceria entre Abel Lanzac, autor do texto, e o designer Christopher Blain.

Apesar do cuidado em se esconder, mantendo a identidade oculta, todo mundo sempre soube que Lanzac, na verdade, era o ‘nom de plume’ (pseudônimo) do diplomata Antonin Baudry, que se inspirou em sua experiência como redator de discursos do ex-ministro Dominique de Villepin, cujo momento de glória foi o discurso que pronunciou perante as Nações Unidas, condenando a intervenção dos EUA no Iraque, em 2003. Na trama de O Palácio Francês, o ministro chama-se Taillard e é interpretado por Thierry Lhermitte. O próprio Baudry, ou Lanzac, projeta-se no jovem Vlaminck que, logo na abertura, está chegando completamente cru ao Quai d’Orsay, contratado – por baixo do pano – para ser assessor de linguagem do ministro.

Isso significa escrever seus discursos e a tarefa se revela das mais complicadas, porque qualquer deslize de linguagem pode provocar uma crise diplomática, mas principalmente devido à personalidade instável do ministro. Ele nunca está satisfeito. Está sempre querendo ousar. Em cada discurso, quer marcar sua presença, e a da França. Os discursos, acrescidos de sugestões de amigos, viram colchas de retalhos. Vlaminck corre o risco de se tornar conhecido como o ‘Frankenstein dos discursos oficiais’.

A paixão de Taillard pelo filósofo pré-socrático Heráclito – chamado de pai da dialética – a toda hora muda a diretriz dos textos. Também fornece a Tavernier os excertos que, à maneira de subtítulos, dividem o filme em capítulos. Thierry Lhermitte imprime carisma (e narcisismo) ao ministro, mas, por mais autocentrado que seja, suas falas não são simplesmente encenações para a mídia e os colaboradores. Como uma trama paralela, corre a história de ameaça de deportação sobre familiares de uma menina na escola em que leciona a namorada de Vlaminck. O filme não termina sem que Taillard, cujos gestos são sempre bombásticos, tome uma iniciativa mais... Veja para saber do que se trata.

E aqui se chega ao ponto. O filme pode ser descrito como o aprendizado de Vlaminck num mundo em que as ideologias, e as próprias palavras, perderam o sentido. Vlaminck começa o filme definindo-se como de esquerda, o ministro é de direita. tudo vira sátira política e a força está concentrada em Niels Arestrup, que ganhou o César, o Oscar francês de coadjuvante, pelo papel. Maupas, é como se chama seu personagem, o chefe de gabinete do ministro. Ele dorme durante os devaneios de Taillard nas reuniões, mas é quem resolve as crises, como a que aflige um país fictício ameaçado de explosão. E assim como Maupin/Arestrup representa a consciência – cínica –, Julie Gayet, como Valérie, introduz o erotismo.

Tavernier, um visionário? Pois Julie, enquanto ele filmava, se converteu no pivô da separação do presidente François Hollande. Valérie aprova os discursos de Vlaminck no privado para acabar com ele em público, isto é, perante o ministro. Mas não faz por mal, explica outro assessor. É um jogo de poder e sexo. Raphael Personnaz, que faz Vlaminck, vem do elenco jovem de A Princesa de Montpensier, do próprio Tavernier. Jane Birkin brilha como escritora – vencedora do Nobel – que o ministro recebe num almoço. Sua caracterização a assemelha notavelmente a Simone de Beauvoir.

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