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Baseado em dramas reais

A história da advogada espanhola condenada a 14 anos de prisão por suposto sequestro da filha rende 'Amor Cruel', de Reyes Monforte

Maria Fernanda Rodrigues, de O Estado de S. Paulo,

29 Janeiro 2012 | 19h50

A história que a jornalista Reyes Monforte conta em seu novo livro poderia ser mais uma sem final feliz como tantas por aí, e isso a autora deixa claro logo no título: Amor Cruel. Acontece que a história é verídica e a protagonista Maria José Carrascosa, uma advogada espanhola que se casou com um americano, ao invés de amargar uma dor de cotovelo porque o marido a abandonou, ganhou uma pena de 14 anos de prisão pelo suposto sequestro da filha Victoria.

 

O caso comoveu a Espanha em meados dos anos 2000, mas não chegou a abalar as relações diplomáticas entre os dois países envolvidos. E foi parar no WikiLeaks. O site de Julian Assange tornou público telegrama que mostrava uma mediação neutra proposital por parte da Espanha, assunto recorrente no livro, que mostra diversas tentativas vãs de um contato com o consulado do país em Nova York - inclusive para encaminhar medicamentos para a prisão. Em outro momento, foi divulgado que o ex-presidente Zapatero teria tentado uma intervenção ao pedir que os Estados Unidos encerrassem o caso. Mas isso só aconteceu devido a outro caso diplomático, e não porque uma cidadã espanhola estava presa injustamente em outro continente.

 

Amor Cruel não é um livro de ficção convencional e não é um romance baseado no drama da família Carrascosa. São exatamente os últimos anos de Maria José contados em detalhes por amigos, familiares e outros condenados que conviveram com ela na cadeia. Situações cotidianas, como conversas em festas, consultas médicas, a rotina no esconderijo e na prisão, são exploradas pela autora na tentativa de montar o quebra-cabeça e dar uma voz à história.

 

Com 15 anos de experiência em rádio e bastante conhecida na Espanha, ela poderia ter feito um bom livro-reportagem porque teve acesso a todos os documentos e aos principais personagens. Mas Monforte tem uma queda por narrativas romanceadas de tragédias reais. É autora, entre outros, de Uma Burca Por Amor, sobre outra espanhola, María Galera, que se apaixonou por um afegão, converteu-se ao islamismo para se casar, viajou ao país do marido e de lá não pode sair por causa do Talibã.

 

"Amor Cruel é mais realidade do que ficção. É, na verdade, um livro em forma de reportagem ficcional. Usei documentos oficiais, nomes reais, cidades e datas. É mais arriscado porque corre-se o perigo de os protagonistas não ficarem satisfeitos porque você contou mais do que devia ou menos, mas acho que assim é mais justo com o leitor. Uma vez mais a realidade supera a ficção. Por que recorrer, então, à ficção se a realidade ultrapassa com folga a imaginação mais exagerada?", comenta.

 

Se Maria José gostou de ver sua intimidade revelada e explorada? Nem um pouco. Em entrevista ao El País, disse que processaria editora e autora. Monforte e Temas de Hoy, do Grupo Planeta, não receberam nenhuma notificação. Lançado em 2008 na Espanha, o livro já teve os direitos vendidos para a tevê, despertando de novo a ira da protagonista.

 

Fadada ao fracasso desde o início, a história de amor de Maria José chega agora ao Brasil pela Planeta. Foi através de um site de relacionamentos, onde se inscreveu por curiosidade, que ela conheceu Peter Innes. E foram as fotos mandadas por ele que chamaram sua atenção (de um jeito bom) - em uma delas, aparecia abraçado a um urso de pelúcia; na outra, estava ao lado de uma árvore de Natal. Peter foi o escolhido entre mais de 1400 pretendentes e já no primeiro jantar Maria se apaixonou.

 

Casou grávida, mas não por isso, três meses depois. Não ganhou nenhuma aliança e não estranhou. Perdeu o bebê logo depois e não teve a conta do hospital paga pelo marido, que se apresentou como um amigo e deixou a mulher se recuperando sozinha. Também não estranhou. Engravidou de novo quatro meses depois e o pesadelo começou.

 

Ao comentar com ele que pediria o visto de residência, sofreu a primeira de muitas agressões, verbais, no princípio, e depois físicas - todas relevadas. Uma hora, no entanto, começou a se assustar. Mas foi o marido quem saiu de casa, deixando mulher e filha. Pouco depois, despachou Victória com os pais para a Espanha, enquanto resolvia algumas questões em Nova York.

 

Chegou a Valência muito debilitada e começaram as suspeitas de que estaria sendo envenenada. Ganhou um tumor no pâncreas e perdeu o baço. O tratamento continua até hoje na cadeia. Já na casa dos pais, recebeu a primeira ordem para que levasse a filha de volta aos Estados Unidos e começou sua busca pelos melhores advogados - milhares de euros já foram gastos e pelo menos uma dezena de advogados foi demitida.

 

Sem conseguir resolver a situação a partir da Espanha, certa de que tudo não se passava de um grande mal-entendido e ignorando o conselho dos amigos e familiares, viajou para os Estados Unidos e se apresentou à corte. Lá, recebeu o ultimato: ou levava a criança para o pai ou seria presa por sequestro. Além de sua teimosia, outra complicação se impôs. No meio do processo, o justiça espanhola, por considerar que Victória deveria ficar no país, confiscou o passaporte da garota. Então, nem que ela quisesse poderia embarcar a filha.

 

Conseguiu se esconder por alguns meses até que foi presa em cena típica de cinema. Confiou que seria por pouco tempo, mas lá se vão seis anos. Deve esperar outros oito para reencontrar a filha, hoje com 11 anos. Houve uma tentativa de amenizar a situação no julgamento, mas isso incluía a convivência entre pai e filha. Maria José não aceitou.

 

Se Peter não se interessava pela família, por que tanto empenho no caso? "Só ele tem a resposta. Peter diz que é tudo mentira, mas aí está a realidade: Maria está presa e sua filha vive com os avós na Espanha. As duas pagam o preço mais alto. Entre o amor e o ódio há um passo. E se todos chegam a fazer tudo por amor, também fazem tudo por ódio. A humanidade está repleta de exemplos como esse", diz.

 

Leia, a seguir, a entrevista que a autora concedeu ao Estado.

 

'Estado': Com surgiu a ideia do livro?

 

Reyes Monforte: Quando vi a notícia na imprensa espanhola, me chamou a atenção. Parecia uma história de cinema: uma mulher jovem, moderna, inteligente, advogada, vivendo um sonho pessoal e profissional no país que tanto idealizava e de repente tudo vem abaixo e seu sonho se converte em pesadelo. Dos últimos anos de sua vida, a única verdade parece ser sua filha de 7 anos, por quem ela decide enfrentar seu marido, o sistema judicial americano e a prisão. Pensei que essa história merecia mais do que uma hora de entrevista, como a que fiz no programa de rádio que eu dirigia e apresentava e achei que a história tinha muitos detalhes que mereciam ser contados. E assim o fiz.

 

'Estado': Como jornalista, você poderia ter feito um bom livro-reportagem. Por que optou pela ficção?

 

Reyes Monforte: Amor Cruel é mais realidade do que ficção. É, na verdade, um livro em forma de reportagem ficcional. Usei documentos oficiais, nomes reais, cidades, datas. É mais arriscado porque corre-se o perigo de os protagonistas não ficarem satisfeitos porque você contou mais do que devia ou menos, mas acho que isso é justo com o leitor. Uma vez mais a realidade supera a ficção. Por que recorrer, então, à ficção se a realidade ultrapassa com folga a imaginação mais exagerada?

 

'Estado': Por que manter os nomes e detalhes do processo se este é um livro de ficção?

 

Reyes Monforte: Queria que a história de Maria Jose ficasse conhecida e que ninguém cogitasse que ela era simplesmente fruto da imaginação da autora. Queria que soubessem que a história é real e que por trás daquela personagem existe uma mulher de carne e osso. Assim, poderiam se mobilizar e se envolver no caso. Pelo que ouvi de leitores, deu certo.

 

'Estado': O que há de ficção em seu livro?

 

Reyes Monforte: A forma romanceada como ele foi escrito. A história de Amor Cruel é complicada de narrar e fazer chegar ao leitor como uma reportagem. Havia muitos documentos e sentenças judiciais que deveriam ser colocados de maneira simples para que o leitor pudesse compreender sem se perder na linguagem jurídica.

 

'Estado': Qual foi seu método de trabalho?

 

Reyes Monforte: Pesquisei em fontes diversas. Falei com Maria José, sua família, amigos, pessoas que a conheceram na prisão etc. Muitas vezes me encontrei com gente que não quis falar e respeitei a decisão.

 

'Estado': Chegou a falar com Peter Ianni ou seus familiares?

 

Reyes Monforte: A versão do marido está no livro. Há declarações dele na imprensa espanhola, poucas e sempre as mesmas. Ele optou pela desclassificação, ameaças e insultos e eu preferi focar na história dela mesmo com várias versões.

 

'Estado': Como o caso foi recebido na Espanha?

 

Reyes Monforte: A população se interessou muito pelo caso, mesmo antes do livro. Mas ele também tem interessado a pessoas de todos os países porque a história é universal, com temas como amor, ódio, família, vergonha e rancor.

 

'Estado': Há muita informação a favor e contra Maria José na internet. Por que escolheu o ponto de vista dela?

 

Reyes Monforte: Maria José é a vítima e seu lado era o que me interessava. É desmedido que uma mulher, ou qualquer pessoa, viva há seis anos na prisão sem ter matado ou prejudicado ninguém e cuja única ação tenha sido tentar proteger sua filha. É verdade que ela pode não ter escolhido os melhores meios, como sentenciou a justiça americana, mas não se pode esquecer que a justiça espanhola deu razão a ela. O que chama a atenção é como a justiça de dois países encara os fatos de maneira tão diferente. Não me soa muito lógico. Mas no livro estão todas as versões para que o leitor escolha a sua.

 

'Estado': Você acredita que tudo seja verdade?

 

Reyes Monforte: Creio que cada um tem a sua verdade, e me limito a contar os fatos para que cada um tire suas próprias conclusões. Mas de qualquer forma, quando um casamento termina cada uma das partes diz verdades e mentiras que vão a seu fazer e contra o outro. Suponho que isso também tenha acontecido aqui.

 

'Estado': Em uma entrevista ao El País, Maria José disse que não havia autorizado a publicação do livro e que processaria a autora e a editora. Como você recebeu a notícia?

 

Reyes Monforte: Sua história é pública e acompanhada pelos meios de comunicação por muito tempo antes do livro. Não precisamos de autorização dos protagonistas - nem de Maria José, do ex-marido ou da família - embora ela tenha insistido em dar. Eu não pedi a autorização e não precisava dela. Foi a família, inclusive, que me ajudou a ter acesso a toda a documentação do caso. Eu pedi para que me dessem entrevista e eles deram - e sabiam para o que era. Alguns me procuraram para falar e outros optaram por não participar. A história está aí e eu a contei como muitos outros já contaram. E ninguém me processou por isso.

'Estado': Ela leu seu livro?

 

Reyes Monforte: Segundo me disse sua irmã, sim. Mas depois do livro eu não tive mais contato com ela. Nunca mantenho o contato com os protagonistas dos meus livros porque ajuda na objetividade da história.

 

'Estado': Se Peter não se interessava pela família - tanto que a abandonou, por que tanto empenho em destruir a vida da ex-mulher, a ponto de acusá-la de sequestro da própria filha e levar adiante um processo longo que terminaria com a condenação dela e ao abandono, na Espanha, da menina?

 

Reyes Monforte: Só ele tem essa resposta. Ele nega tudo o tempo todo. Como coloco no livro, ele diz que é tudo mentira, mas aí está a realidade: Maria José está presa e sua filha vive com os avós na Espanha. Se o que querem é a felicidade da menina, ninguém pode estar feliz com o fim da história. Ela e a mãe estão pagando o preço mais alto. Entre o amor e o ódio há um passo. E se todos chegam a fazer tudo por amor, também fazem tudo por ódio. A história da humanidade está repleta de exemplos disso.

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