Barulho e silêncio nas letras

Com o romance No Buraco, ele cruza, pela primeira vez, a escrita literária com o rock'n'roll

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2010 | 00h00

O ritmo da escrita continua ágil, mas No Buraco, novo romance de Tony Bellotto, oferece novidades. Em nenhuma linha, por exemplo, é citado seu principal personagem, o detetive Remo Bellini, criado em 1995 e presente em outros três livros. A cena é agora ocupada por Teo Zanquis, guitarrista de uma banda de rock que conquistou apenas um sucesso nos anos 1980. Amargurando agora um esquecimento, ele rememora sua trajetória.

Narrada em tom confessional, a história recupera momentos do rock nacional, temperados por um humor ácido e inteligente. Sobre o processo de escrita, Bellotto respondeu às seguintes perguntas, por e-mail.

Por que o tema da velhice o interessou agora? O fato de chegar aos 50 anos teve alguma influência?

Acho que sim. Ao chegar aos 50, uma pequena esfinge adormecida desperta dentro do teu peito e começa a te fazer perguntas incômodas: e aí, era isso mesmo, mano? Hum... saltando no palco como um bode velho fazendo beicinho pra meninas com idade pra serem tuas sobrinhas-netas? Que mico, velho... coisas assim. Além disso, acho que a crise (o fim?) da indústria do disco determinou uma certa visão fracassada do business como um todo.

A intersecção entre a música e a literatura ocorre só agora, nesse livro. Por quê? Você sentiu necessidade de primeiro ocupar terreno nas duas áreas para então fazer o cruzamento?

Sim. Esse No Buraco é o livro que eu sempre quis escrever. Quando comecei, queria escrever sobre isso, falar da minha vida. Mas me faltava técnica, experiência e até VIDA mesmo, no sentido de não ter ainda tempo pra refletir sobre o que me acontecia. Aos 33 anos, quando comecei a escrever seriamente, eu estava simplesmente vivendo. Agora sinto que ainda continuo vivendo, claro, mas é como se tivesse um GPS acoplado, me mostrando as rotas do meu passado... isso não desmerece o Bellini, um personagem em que consegui inocular muito de mim mesmo, mas ainda precisava das "muletas" da literatura policial. Agora estou livre delas, até mesmo para escrever um policial, se esse for o meu desejo.

A aproximação com Jack Kerouac é bem forte - você até comentou que No Buraco, em inglês, seria On the Hole, título muito próximo de On the Road. O que o atrai mais em Kerouac: a urgência de vida, a necessidade urgente de solidão, a tristeza plácida?

O Kerouac é um personagem contraditório, pois ao mesmo tempo em que era gregário, e vivia às voltas com uma turma da pesada, enchendo a cara e vivendo la vida loca, tinha uma necessidade - e uma compulsão - muito forte de solidão, isolamento e uma certa tendência a um espiritualismo freak. Gosto, sim, dessa visão melancólica dele, da urgência de vida e da compreensão da estrada como oráculo - que acabou virando um dos pilares do rock"n"roll style of life -, mas tecnicamente não me atrai muito a linguagem do Kerouac. Prefiro escritores como Hemingway, por exemplo, mais concisos e concentrados. Agora, ninguém pode tirar do Kerouac o mérito de ter inventado uma linguagem. Gosto muito também do Bukowski, que é um meio termo entre o Kerouac e o Hemingway...

Ao mesmo tempo, é possível observar que seu texto é carregado de matizes da cultura pop e que faz lembrar Nick Hornby, Douglas Copland, Irvine Welsh, Jay McInerney e Bret Easton Ellis, entre os escritores relativamente novos. O que pensa disso?

Tem essa referência também. Acho que é uma forma relativamente nova de discurso literário, esse de incorporar o mundo pop ao austero e muitas vezes enfadonho mundo da "alta" literatura. Sou fã de escritores que conseguem "traduzir" esse universo barulhento do rock para o silêncio das letras. Me espelhei neles também, de certa forma. Logo no segundo capítulo de No Buraco há uma lista dos dez melhores discos de rock de todos os tempos, e não há como botar isso num livro sem pensar no Nick Hornby.

Você acha que está faltando uma atitude mais rock na literatura brasileira atual?

Falta rock na literatura brasileira de sempre! Falta rock não só aos escritores, mas aos leitores também. Falta ligar o "foda-se" de vez em quando. Escritores em geral se levam muito a sério e isso é sempre um perigo para as suas "literaturas". Ainda bem que gente como Reinaldo Moraes, Machado de Assis, Marcelo Mirisola e Dalton Trevisan, entre muitos outros, se encarrega de desmentir a regra...

Você acredita que a literatura, especialmente a brasileira, está dando conta da realidade de hoje, que é tão complexa e acelerada?

Acho que sim. Brinco com essa história de dizer que escritores se levam a sério demais - o que é verdade -, mas não há como negar que oferecem a melhor reflexão e retrato possíveis do Brasil e do mundo atual. A música não consegue mais fazer isso, talvez à exceção de alguns rappers, nem o jornalismo. Quando o cinema consegue, é baseado em livros. Livros como Cidade de Deus, Elite da Tropa e Blindness são obras que comprovam isso. Assim como os trabalhos do Marçal Aquino, da Patrícia Mello, Ferréz, Fausto Fawcett, Roberto Bolaño e Philip Roth, por exemplo, só para citar alguns nomes ao acaso.

QUEM É?

Nascido em São Paulo em 1960, Tony Bellotto é, além de escritor, compositor e guitarrista da banda de rock Titãs desde sua criação, nos anos 1980. Estreou na literatura em 1995, com Bellini e a Esfinge, levado ao cinema por Roberto Santucci Filho em 2001. No Buraco é seu sétimo livro.

  TRECHO

"Vozes se sobrepõem às falas do dissertador semântico-ginecológico. Não distingo...

...mais o significado das palavras. Se é que têm algum. Agora ele profere alguma coisa em ães. Guimarães, acho.

Ao fundo o mar parece dizer num timbre de órgão Hammond: Lien...

Sim, a Lien. Tinha me esquecido dela durante a soneca.

Navegadores portugueses do século 15 chamavam o oceano Atlântico de Mar Tenebroso. As ondas que me sussurram o nome sutilmente enigmático - Lien - não soam especialmente assustadoras. Presumo que o verdadeiro Mar Tenebroso está contido no quilo e quatrocentos que pesa em média um cérebro humano.

Aqui estou, portanto, uma avestruz filosófica com a cabeça enterrada na areia. Se me perguntarem qual a primeira coisa que farei ao sair do buraco, direi: procurar a Lien.

Li-en: a ponta da língua descendo em dois saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no segundo, contra os dentes. Li-en, acrescentarei, empolado - parodiando Nabokov -, talvez contaminado pelas arguições do scholar do bumbum tatuado, numa tentativa de impressionar meu interlocutor com uma erudição fora de hora.

O problema é: ninguém vai me perguntar nada.

Estou sozinho. Na melhor das hipóteses, que horas são? E eu nem tenho relógio. Sempre existe a possibilidade de uma balzacona bem passada me reconhecer: é você?

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