Bartók com força para impressionar

Tem sido formidável a sequência de grandes pianistas na atual temporada da Osesp. Depois de Marc-André Hamelin, Andras Schiff e Maria João Pires, o excepcional Jean-Efflam Bavouzet. O francês que encantou em 2010 com recital e apresentação com orquestra tem se imposto na cena internacional com gravações de referência de Ravel, Debussy, Haydn e dos concertos de Bela Bartók (todos para a gravadora Chandos).

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

Anteontem, na Sala São Paulo, ele solou o terceiro concerto para piano de Bartók, sua derradeira obra, de 1945 (os 17 compassos finais foram completados por Tibor Serly após sua morte). Por ter sido escrito para sua mulher e também pianista Ditta Pasztori, e não para si mesmo, é tido como mais fácil do que os anteriores. Weissmann, citado por Tranchefort, define bem a diferença deste em relação aos anteriores: "Aqui, nada desse dinamismo agressivo ou da tensão voluntárias das primeiras obras; aqui reinam a claridade na estrutura, a transparência das tonalidades e a serenidade dos sentimentos expressos nessa simplicidade que é a marca do último Bartók". É excessivo falar em obra "descuidada", como faz Paul Griffiths, que em texto reproduzido no programa abre uma janela para o que chama de "transcendência". Pode até ser tecnicamente verdadeiro, mas pouca importância tem em vista do notável resultado. O ateu Bartók, às vésperas da morte, teve um surto religioso (o maravilhoso Adagio central leva esta designação). Amacia sua escrita, namora com Bach e Beethoven e mergulha nos sons da natureza.

Ver e ouvir Bavouzet em ação a 3 metros de distância é um banquete. Além de um toque preciso, ríspido, amoroso ou transparente, ele também "rege" a orquestra, junto com o ótimo maestro francês Louis Langré. De fato, o piano 'conversa" bastante com as madeiras e as cordas; a certa altura, ele tocou uma nota repetida no grave com a mão direita só para com a esquerda fechar num grande arco a frase da orquestra que o acompanhava. Quanto aos músicos, de novo se vê como é importante terem no pódio um maestro competente. Langré não foi só correto; fez uma Abertura Coriolano de Beethoven idiomaticamente correta; e nos fez sentir, na plateia, o sentido originário da frase de Berlioz quando compunha sua Sinfonia Fantástica, modelo da música programática do século 19: "Preparo uma composição de um gênero novo por meio da qual vou impressionar fortemente minha plateia". Sobretudo quando bem tocada, como aconteceu anteontem na Sala São Paulo.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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