Barriga de tanquinho

Ganhei no fim do ano passado a biografia de Adolf Hitler escrita por Ian Kershaw e publicada pela Companhia das Letras. Chegou com um bilhete simpático da minha amiga Maria Emília, que trabalha na editora. Disse que era um livro grande para um leitor voraz. E, de fato, são mais de mil páginas. Capa dura. Um quilo, imagino.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2011 | 00h00

A biografia ficou ali na mesinha da entrada da minha casa, na capa o rosto sádico do ditador com o braço envolto em um cachorro, os dois a me olharem. Sabia que estava ferrado. Não teria como escapar do livro. Mil páginas de crueldade, húbris, ódio, tortura, genocídio e a civilização enlouquecida.

Digeri histórias da 2.ª Guerra durante minha infância toda nos Estados Unidos junto com aqueles cereais carnavalescos feitos para aparecerem em destaque na recém-lançada televisão em cores. Montava pequenos modelos em plástico de Spitfires e Zeros - aviões estrelas das batalhas aéreas - com uma cola de cheiro forte e bom. Assistia a documentários dedicados à guerra na escola desde pequeno. Conhecia batalhas. Não teria como resistir à leitura.

Comecei o livrão de Hitler na fazenda do meu cunhado, onde passei uma semana no início do ano. Estou na página 631. Todo dia leio um pouco. A qualidade da reconstrução histórica impressiona. Kershaw chega a descrever os gestos feitos pelo Führer ao tomar conhecimento de notícias chaves da guerra. Mas não levo a obra no ônibus para não assustar os outros passageiros. (Você se sentaria ao lado de alguém perdido em um livro de sete centímetros de grossura com a cara de Hitler na capa?) Ainda bem que sei como acaba. Caso contrário, estaria mais assustado até com a ruindade dos nazistas. A narrativa é irresistível. É o mal em estado puro.

Por sorte, tenho um personal especialista na 2.ª Guerra na figura do meu amigo professor Antônio Pedro Tota. Voltei a praticar o pedestrianismo com ele na Avenida Sumaré, acompanhado do filósofo e designer gráfico Marcão Sismotto. É um trio de fácil reconhecimento para quem passa de automóvel. Três senhores de uma certa idade, com as marcas das décadas de 60 e 70 nos corpos e nos estilos de vestuário esportivo. Embora, verdade seja dita, apesar de seus 60 e tantos anos, o professor esteja em forma. De tanto fazer o pedestrianismo, como diz o Marcão, está com a "barriga de tanquinho".

Nesse trio, o professor faz o papel do pessimista. Reclama que a civilização está em declínio, que ninguém mais ouve Thelonious Monk (jazzista americano), a internet é um engodo e há automóveis demais, sem nem falar da televisão. Isso quando está de bom humor.

Tenho discutido com ele a biografia de Hitler na Avenida Sumaré. O professor sabe tudo sobre a 2.ª Guerra. Escreveu livros sobre o assunto. Consegue explicar a conexão feita nas mentes doentias dos nazistas entre o antissemitismo e o anticomunismo, para dar apenas um exemplo.

Semana passada, montei uma armadilha intelectual para o professor Tota. Ponderei que diante da minha leitura ficava evidente como a civilização se aprimorou de 70 anos para cá. Apesar dos problemas atuais, a miséria, o aquecimento global, o declínio no gosto musical, não é possível imaginar a repetição da barbárie do Hitler nos dias de hoje. O mundo é outro. Melhorou. Aquela violência profunda, fundada no mito de raça, não é mais possível, não na escala nazista.

Passávamos, juro, debaixo da estação Sumaré de metrô, aquela decorada com fotos de desaparecidos políticos do tempo da ditadura. O professor andou uns 20 metros em silêncio. Pensava. Depois respondeu: "Melhorou, sim, pelo menos para alguns".

A caminhada prosseguiu. Mudamos de assunto. Marcão explicou para o professor o que é uma barriga de tanquinho.

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