Barracão investiga poder da máscara

Toda forma traz em si mesma um conteúdo. Diário Baldio, espetáculo da companhia Barracão Teatro, investiga a natureza das máscaras teatrais. E trata de desvelar a dramaturgia que emerge desses artefatos.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Foi em 2006 que o grupo de Campinas iniciou uma pesquisa sobre a máscara e sua potência na criação da cena. O resultado pautou a realização de Diário Baldio. "Tomamos como ponto de partida a ideia de que toda máscara já traz em si uma dramaturgia, já impõe uma relação", comenta a diretora Tiche Vianna.

Apesar de seu vínculo evidente com a tradição da Commedia dell"Arte, a peça segue por um caminho que extravasa a abordagem temática do gênero popular da Idade Média.

Na hora de eleger seus personagens, incide na figura do bufão. Bebe em seu manancial de crítica social. Vale-se de sua origem popular. Trata, porém, de subvertê-la com uma abordagem de tons contemporâneos.

Acompanhamos o encontro de duas figuras: Lady e Cotoco. A primeira é um travesti - ou algo de andrógino, a flutuar entre o feminino e o masculino. A segunda é um homem deformado, vítima de alguma anomalia congênita, a exibir formas e gestos grotescos.

Diferenças à parte, ambas habitam um território de desamparo. Foram banidas do convívio social e precisam forjar novas formas de se relacionar. Voluntariamente, Lady se retirou do mundo. Vive isolada em um beco, do qual acredita ter eliminado todos os ecos da cidade, todos os vestígios de violência.

Não é bem assim. Diante da presença de Cotoco - esse ser disforme e repulsivo - Lady revela reproduzir os preconceitos do qual ela própria foi vítima. "Ela cria para si um mundo no qual acaba repetindo aqueles mesmos valores do mundo que abandonou", aponta o ator Ésio Magalhães, que divide o palco com Gabriel Bodstein.

Tal qual os antigos bufões ou os velhos bobos da corte, Cotoco pode dizer as verdades que até então jaziam interditas. Mas pode também, com sua alma infantil, instaurar uma aura de sonho, da qual fazem parte a música e a brincadeira.

Como em seus trabalhos anteriores, a Barracão Teatro não buscou um texto prévio. Diretora e atores se deixaram simplesmente guiar pelas trilhas que suas máscaras iam abrindo. Chegaram a um jogo que oscila entre a rispidez e a doçura. Algum lugar em que afeto e morte se encontram, onde o cômico resvala na tragédia.

DIÁRIO BALDIO

Tusp. Rua Maria Antonia, 294, V. Buarque, 3123- 5233. Sáb., às 21 h; dom., às 20 h. R$ 20. Até 25/9.

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