Barnes contrapõe ingleses e franceses

Com o mesmo refinamento irônico demonstrado em O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes volta a se aproximar da França em Do Outro Lado da Mancha, coletânea de dez contos sobre as folclóricas diferenças entre ingleses e franceses - dois povos separados geograficamente apenas por um estreito canal, mas por um abismo do ponto de vista da cultura e do comportamento, o que gera uma certa atmosfera de incompreensão e animosidade em suas relações.É importante observar que Barnes não é um espectador neutro desse diálogo: rigorosamente britânico, apesar de visitar o interior da França pelo menos duas vezes por ano com sua mulher, ele não consegue evitar alguns clichês no desenho dos personagens do continente. Mesmo assim constrói com delicadeza e engenho histórias saborosas, que por seu ritmo musical podem ser entendidas como variações sobre o mesmo tema, e que só podem ser justamente apreciadas em seu conjunto. Travessias - Todas as histórias apresentam ingleses que atravessaram o Canal da Mancha para passar algum tempo na França, em tempos e contextos diversos. A integração entre pequenos dramas individuais e momentos históricos é feita de forma sutil: Barnes não deixa que sua evidente erudição se sobreponha ao conteúdo humano de seus contos.A sensação de estranheza e de estar "fora do lugar" é recorrente nos protagonistas, seja os do passado longínquo - Dragões trata da perseguição dos protestantes por mercenários irlandeses católicos numa aldeia medieval, no século 17, enquanto Entroncamento parte da construção de uma ferrovia por operários dos dois países, em 1846, para refletir sobre a dificuldade de comunicação e a barreira lingüística - seja os do futuro - caso de Túnel, relato sobre um inglês que faz um balanço da sua existência e reflete sobre o valor da viagem na vida das pessoas, em seu trajeto rumo a Paris, em 2015, e que inclui uma autocrítica do escritor: "Julgamentos sobre outros países raramente são justos ou exatos." Gnosienne, outro conto com um toque autobiográfico, mostra um escritor que abomina eventos literários e recebe um convite para comparecer - e apenas isso - a um congresso no interior da França. Embora se possa interpretar filosoficamente a obsessão dos ingleses por seus vizinhos - por exemplo, como o reflexo do fascínio imemorial pelo "outro", ou como a busca de um espelho que os ajude na compreensão de si mesmos -, Julian Barnes não tem uma tese a defender; simplesmente registra cenas do cotidiano que refletem as diferenças de valores e atitudes diante da vida. Em Interferência, um compositor consagrado e rabugento passa o tempo esperando discos pelo correio e ouvindo música no rádio, quando a transmissão não é interrompida pelos motores dos vizinhos.Já o engraçado Brambilla conta em primeira pessoa a aventura de um ciclista rude que participa do Tour de France e de sua mulher, uma dançarina de strip-tease. Retratos psicológicos - Nesses e em outro contos, Barnes utiliza uma técnica de montagem para fazer retratos psicológicos tão interessantes que quase dispensam os desenlaces bruscos, às vezes trágicos, que coroam as narrativas. É uma pena, aliás, que a tradução não acompanhe todas as nuances artesanais do texto original. Ainda assim, a leitura de Do Outro Lado da Mancha é compensadora, no mínimo por ajudar a entender de que maneira se processa o atrito entre ingleses e franceses do ponto de vista de um dos melhores escritores britânicos de nosso tempo. Contraparte - Nesse sentido, pode ser lido como a contraparte ficcional dos relatos de viagem de Peter Mayle sobre suas temporadas na Provence, ou do livro de Alain de Botton sobre Proust. Como se vê, não são poucos os autores ingleses que se debruçam sobre os vizinhos. Do outro lado da Mancha, de Julian Barnes. Tradução de Roberto Grey. Editora Rocco, 162 páginas, R$ 23.

Agencia Estado,

02 de outubro de 2001 | 11h53

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