Alex Silva/AE
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Barítono italiano apresenta recital no Teatro São Pedro

Renato Bruson relembra as mais de cinco décadas de carreira musical e critica geração atual

JOÃO LUIZ SAMPAIO - O Estado de S.Paulo,

27 de abril de 2012 | 03h09

Ele vê a câmera e logo reage: nada de fotos. Não tira os óculos escuros, a perna, inquieta, não para de se mexer. Ouve a pergunta. Como avalia o primeiro dia de aulas com cantores brasileiros, no dia anterior? "Se vamos começar falando disso, acho melhor encerrarmos por aqui. O que mais você quer saber?"

À primeira vista, o barítono italiano Renato Bruson intimida. Não é apenas o aparente desconforto em conceder a entrevista, na manhã de quarta-feira, em um hotel da região central de São Paulo. Há também as mais de cinco décadas de carreira, as dezenas de gravações, o currículo que o coloca nos principais palcos de ópera do mundo, ao lado de todos os grandes - como ele.

Bruson está com 78 anos. E, sim, continua cantando. Há três anos, roubou a cena em uma Traviata na Ópera de Los Angeles como Giorgio Germont, ao lado da soprano Renée Fleming. Em 2007, causou furor no mesmo papel, em Roma. O público, alucinado, exigiu bis de sua ária. E a estrela da montagem, a romena Angela Georghiu, ofendida com a atenção dada ao colega, abandonou a produção. Ninguém ligou.

Desde terça-feira, ele está em São Paulo. Ao longo da semana, deu aulas para jovens cantores brasileiros, os mesmos que, com ele, sobem ao palco hoje para recital no Teatro São Pedro, quando interpretam canções e trechos de ópera. "São vozes interessantes, mas sinto falta de preparo. Onde estão os professores? Mas essa não é uma questão brasileira. Não pense que na Itália há grandes mestres. Não mais", diz ele, que leciona na prestigiada Academia do Teatro Alla Scala, de Milão.

Nascido em Parma, Bruson começou a carreira nos anos 60. Depois de cinco anos de estudo, participou de um concurso em Spoleto. Nunca havia cantado uma ária de ópera, lembra, seu estudo era basicamente dedicado a canções, ao repertório de câmara. No concurso, precisava cantar trechos de ópera. Aprendeu correndo algumas peças. E venceu. Contratos lhe foram oferecidos. Fez sua estreia como o Conde de Luna, no Trovatore, de Verdi. "E, depois, deixei de novo a ópera de lado. Eu não estava pronto."

Estar pronto, ele explica, não tem nada a ver com a voz. Não apenas, pelo menos. O lendário maestro Carlo Maria Giulini dizia de Bruson que era um dos poucos intérpretes de sua geração "a unir voz com inteligência, dignidade, musicalidade". Giuseppe Sinopoli via nele o grande barítono italiano depois de Tito Gobbi, capaz de fazer "expressão e palavra coincidirem".

"Um professor não é capaz de te ensinar tudo e boa parte do aprendizado é responsabilidade sua", explica. "Veja, voz é som. E som não é arte. Arte é interpretação." Ele bate no peito. "Para o público ouvir com o coração, você precisa cantar com o coração. Mas isso ninguém me disse, precisei aprender sozinho, ouvindo os outros e errando bastante." Gobbi, companheiro de Maria Callas em boa parte de suas gravações, foi referência, diz, mas não a mais importante. "Boris Christoff! Ah, você não o ouvia cantar, você o ouvia atuar. E eu aprendi com isso."

Bruson é normalmente associado às óperas de Giuseppe Verdi, mas recusa a classificação de "barítono verdiano". "Não sei o que isso significa, são vocês da imprensa que inventam essas coisas", ele dispara. Mas reconhece a afinidade com papéis como Macbeth, Simon Boccanegra, Iago, Falstaff. "Verdi é emoção direta, pura, no sangue. Quando se canta sua música, o envolvimento é total, não tem como fazer pela metade." Donizetti, diz, também foi muito importante no desenvolvimento de sua voz. "Mas ninguém fala em cantor donizettiano. Quer saber o motivo? É porque, apesar de ele ter escrito mais de 70 ópera, só se produz 4 ou 5 delas. Algo que devemos à grande inteligência dos nossos diretores de teatros..."

Bruson não tem papéis preferidos, mas nos últimos anos tem interpretado principalmente Germont e Falstaff. Como foi gravar a última ópera de Verdi, baseada em Shakespeare, com Giulini? "Um sonho", ele diz, o tom anteriormente seco, agora emocionado. "Nunca o ouvi berrando com um cantor, um diretor. Um homem gentil, raro. E um gênio musical. Os dias de trabalho com ele foram inesquecíveis." Ele faz uma pausa. "Veja, não existe mais isso. Os grandes maestros de ópera de hoje não conhecem voz. A única coisa a que se referem é andamento, tempo. Mollinari-Pradelli, Tulio Serafin, Giulini, esses entendiam de canto, sabiam guiar um cantor. Serafin ajudou Callas a encontrar seu repertório, ser quem ela foi. E hoje, quem pode ajudar um cantor?"

As críticas não são apenas aos maestros - e ele não poupa colegas. Não dá nomes, "jamais". "São todos estrelas hoje, não? Querem ganhar dinheiro e fazer uma carreira. Os artistas desaprenderam uma lição importantíssima: a coragem de dizer não. Cantam tudo. E as vozes não duram. Nos últimos anos assisti a bons cantores, vi dois ou três barítonos que me empolgaram. Onde estão hoje? Com problemas vocais. Canta-se demais. Eu me lembro, nos anos 80, de cantar Otello com Plácido Domingo em Buenos Aires. Ele cantava à noite, pegava um avião, ia para a Europa cantar. Voltava dois dias depois, fazíamos mais uma récita de Otello. Então, pegava de novo seu avião e ia para os Estados Unidos."

O problema, completa, é que nem todo mundo tem a voz - e a inteligência - do tenor espanhol. E o tal "mundo moderno" não ajuda. "Quando eu comecei, o Scala fazia 21 óperas por ano, com uma equipe de 50 pessoas. Hoje, são 800 pessoas e apenas um punhado de montagens. Dá para entender? O problema nunca foi a quantidade de dinheiro, financiamento sempre tem. A questão é ter de bancar essas estruturas gigantescas."

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