Bares se especializam em oferecer "prontas para beber"

Syang fecha os olhos e beija uma garrafa de vodca com limão como se fosse a salvação de sua vida. Então a segura pelo gargalo e mira seu conteúdo com uma expressão de quem vai sumir com os 300 ml em uma golada só. As duas imagens da roqueira etílica estão sendo usadas para a campanha publicitária da Orloff Ice, uma das dezenas de marcas de um tipo de bebida que entra na noite disposta a seduzir jovens e quebrar rituais de comportamento. Elas são as "ready-to-drink", ou "prontas para beber". Não precisam da mesa de bar, garçom, abridor de garrafas, copo, gelo, roda de amigos. É pegar e beber. A brincadeira que parecia tola ficou séria quando as pioneiras, como a vodca Smirnoff Ice, passaram a ver seus faturamentos dobrarem e seus formatos serem copiados. Logo bares, lojas de conveniência e casas noturnas não tinham mais espaço para elas nas prateleiras. "Segurar uma garrafa na mão em uma balada, e não um copo, é mais charmoso", diz o estudante Tiago Rosa, 19 anos. A Skol lançou a Skol Beats, uma long neck de design moderno, menos amarga e teor alcoólico (5,2%) mais alto que a tradicional (4,7%). A idéia veio depois que um estudo da empresa apontou o clarão que havia em um meio freqüentado por jovens entre 18 e 24 anos que não são do tipo que saem do trabalho e se reúnem com amigos no bar da esquina. "Foi uma forma de estar presente fora da situação de cervejada", diz Carlos Lisboa, gerente de marketing da empresa. Sem leis anti-etílicas que o impeça de patrocinar shows e eventos culturais, o império das "ready-to-drink" ataca para formar público. A briga é feia porque marca de bebida é como banda de rock: quem gosta de uma detesta a rival. A Skol, de olho nas personalidades em formação, lançou uma banda chamada Skol Beats Band para tocar em casas de música eletrônica como Lov.e, Lizard Lounge, Mood Club - jogada de mestre para fazer a cabeça de garotos que às vezes não chegaram aos 18 anos. A Orloff Ice, que só perde no meio das baixinhas para a Smirnoff Ice, vem na mesma pegada. Syang, roqueira saída da Casa dos Artistas, fechou uma parceria com a empresa para vender seus discos junto com a bebida. Na promoção, quem compra um sixpack - caixa com seis garrafas do produto - ganha um álbum da cantora. Mas há quem diga que só tomando todas para ouvir o disco. Não importa, o que interessa à Orloff é atrelar sua imagem à saúde e jovialidade da garota. Ao notívago de carteira mais vistosa, freqüentador de casas sofisticadas, a Johnnie Walker criou o Johnnie Walker One. A bebida com 5% de teor alcoólico - um uísque convencional tem entre 35% e 40% - é uma mistura de malte e água gaseificada, deixando um gosto que alguns confundem com guaraná. Eventos em casas noturnas também fazem parte de sua estratégia para proliferar a marca. Missão mais espinhosa terá a caipirinha "ready-to-drink". O Grupo Tatuzinho, que tem como carro-chefe a cachaça Velho Barreiro, espremeu pinga com limão em uma garrafinha e fez sua Caipirinha Ice. O tabu a se quebrar aqui é o de fazer com que o camarada que sempre tomou caipirinha no copo com gominhos de limão boiando e misturou a cachaça com açúcar usando um palitinho troque o ritual por um único gesto: mandar o líquido goela abaixo. "A idéia foi lançar um produto para um público de menor poder aquisitivo", explica César Rosa, diretor-presidente do grupo. A ferida de todos chama-se responsabilidade social. Afinal, como é que uma empresa de bebida alcoólica que quer seduzir jovens a todo custo pode se livrar da responsabilidade quando ele se tornar um alcoólatra? "Não anunciamos nossos produtos na grande mídia. Nossa postura é de conscientizar de que a bebida é para descontração, não para vício", fala Rosa, da Tatuzinho. "Em nossos eventos damos apoio e fiscalizamos para que não entre nenhum menor de 18 anos", diz Lisboa, da Skol. É um começo, mas este gargalo é bem mais embaixo.

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2003 | 10h29

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