Barenboim cria selo para lançar suas gravações

Peral é inaugurado com sinfonias de Bruckner, mas gravadora 'independente' será operada pela major Universal

João Marcos Coleho, Especial para O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2014 | 02h10

O pianista e maestro Daniel Barenboim anunciou na semana passada a criação de seu selo "exclusivamente digital", que irá lançar suas gravações como recitalista, camerista e regente. Nesta última função, o selo vai distribuir os registros de duas orquestras: a Staatskapelle de Berlim e a Orquestra East-West Divan.

O nome da gravadora de Barenboim é Peral. Não haverá lançamento de CDs físicos. O primeiro lançamento traz a Staatskapelle nas primeiras três sinfonias de Bruckner. Barenboim, que também vai gravar peças que "os jovens estudantes de piano encontram em suas aulas e nunca ouvem adequadamente tocadas". É o embrião do que chama de "departamento educacional" do selo. E agradece o apoio da Universal, dona dos selos Decca e Deutsche Grammophon, para os quais ele grava, e sua parceira na Peral.

Na verdade, todos estão atrasadíssimos nesta empreitada. Primeiro, o selo de Barenboim é "fake", afinal é a Universal quem vai tocar toda a parte administrativa e de marketing. E a Universal? Demorou para perceber que errou ao dar um chute no traseiro de tantos grandes músicos que mantinha sob contrato na virada do milênio.

A Filarmônica de Berlim, outra retardatária, também chegou estes dias à mesa, com selo próprio. Mas ela está sozinha no negócio. Sabem quando a Sinfônica de Londres montou seu selo? No início do século 21. A estratégia é simples: põe à venda praticamente todos os seus concertos em forma digital. Músicos como o violoncelista Matt Haimowitz e o violinista Gil Shaham mantêm há muito tempo seus selos. A própria Osesp, como orquestra pública, deveria colocar seus concertos em streaming em seu portal, com opção de download a preços simbólicos, já que toda a sua discografia está disponível não em seu portal, mas em www.classicsonline.com por US$ 9,99 o CD.

A música redime. Barenboim parece não ter sacado que não precisaria da Universal para nada. Mas isso pouco importa, já que é glorioso o início da sua terceira integral das sinfonias de Bruckner. No vídeo promocional, ele diz que Bruckner sempre o interessou, não pela arquitetura das suas sinfonias. "Sinto que reger Bruckner é como um trabalho arqueológico, a música vai cada vez mais fundo, você vai escavando e descobrindo novas camadas."

O que mais impressiona nestas leituras é um detalhe que o maestro deixa escapar na seguinte frase: "É preciso tocar Bruckner com certa liberdade no fraseado e com um halo vocal, em vez de puramente instrumental". Ora, a Staatskapelle toca Wagner desde o século 19, argumenta. Portanto, acrescenta uma teatralidade, essencial a Bruckner, mas recalcada em favor da monumentalidade que tende ao engessamento. "A orquestra também ressalta as progressões harmônicas tão importantes em Wagner, coisa que as orquestras não-líricas não conseguem fazer".

Poderiam ser só palavras. Mas acontece que esta teatralidade realiza-se com uma força descomunal na leitura destas sinfonias, sobretudo nos adágios. Sente-se a liberdade no fraseado particularmente no Moderato con moto da terceira. Na verdade, percebe-se uma flutuação de tempo, cacoete divino que Barenboim captou da regência de seu ídolo Furtwängler.

E pensar que antigamente três CDs importados custariam no mínimo uns R$ 240. Hoje, por R$ 30, você leva as três sinfonias, uma música sublime numa leitura entusiasmante, tão diferenciada, empolgante e memorável quanto a que o mesmo Daniel Barenboim fez das últimas três sinfonias de Bruckner em 2008 com esta mesma orquestra na Sala São Paulo.

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