Bardem compõe um personagem no mundo dilacerado

Ao primeiro olhar, o que mais se destaca em Biutiful é a entrega de Javier Bardem ao seu personagem, Uxbal. Um tipo complexo, envolvido com biscateiros de rua e exploração de trabalho ilegal. Pai de dois filhos com mulher diagnosticada como bipolar. Como se não bastasse, sofrendo de câncer terminal na próstata.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Como se vê, Uxbal, que não é bom e nem mau, apenas contraditório, carrega o mundo nas costas. Há no filme uma dimensão, digamos, "espiritual" que não parece casar muito bem com o realismo extremo imprimido à história, e que se manifesta sob a forma de um ser que dialoga com Uxbal quando este talvez esteja passando desta para a melhor. A cena é recorrente e comparece tanto no início como nas sequências finais do filme. Não acrescenta grande coisa a uma trama dramática que parece funcionar tanto melhor quando mais imersa na crueza da vida.

Esse é o grande mérito do mexicano Iñárritu e presente desde o trabalho que o tornou mundialmente conhecido, Amores Brutos (Amores Perros, no original). Em Biutiful (grafado assim mesmo, inglês fonético para a palavra beautiful), Iñárritu fotografa uma Barcelona que nada tem de cartão-postal. Nela, não se reconhece a cidade que Woody Allen filmou em Vicky, Cristina, Barcelona, por exemplo.

Normal. Qualquer cidade, mesmo as mais belas, charmosas e encantadoras, possuem seu lado sórdido, pois de luz e sombras se compõe a natureza do ser que as constrói. E é para esse lado que Iñárritu olha de preferência. Para os quarteirões menos cuidados, os bairros mais problemáticos, a corrupção da polícia, que faz vistas grossas para os imigrantes ilegais a troco de suborno, claro. E a condição sub-humana a que essas pessoas se submetem para ganhar a vida em euros. Um acidente "de trabalho" será a senha para o despertar de consciência de Uxbal. Se é que, com tantos problemas, ela estava ainda adormecida.

Iñárritu filma com uma câmera intensa, fotografa em tons escuros e explora ao máximo o rosto expressivo de Bardem - que alguém já comparou a cabeças de touro desenhadas por Picasso. Em outros filmes, Bardem tirou proveito dessa força expressiva na forma de pulsão sexual; em Biutiful ela é empregada como dilaceramento diante do mundo. Um mundo, diga-se, de cuja desordem ele também participa e no qual não encontra repouso. Nem mesmo nas condições de saúde precárias em que se encontra. O filme está na lista dos nove finalistas para o Oscar de língua não-inglesa. É um dos fortes candidatos.

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