Barcelona quer beatificação de Gaudí

No dia 10 de junho de 1926, Antonio Gaudí morria no quarto de um hospital de Barcelona, após ter sido atropelado por um bonde. Apagava-se assim a luz de uma vida dedicada inteiramente à arte e à devoção religiosa.Muitos anos depois de sua morte, Gaudí continua sendo um personagem de interesse capital para Barcelona, sua terra, e para o mundo inteiro. Obras importantes como o Park Güel, La Pedrera e a Casa Batlló oferecem testemunho de sua arte e criatividade transbordantes, mas especialmente a Igreja da Sagrada Família, um projeto que ainda não foi concluído e cuja grandiosidade atrai artistas, turistas e curiosos do mundo inteiro.Mas Gaudí não é apreciado somente pelos artistas, ele é um homem de grande valor para a comunidade católica.No último dia 10 de março, o delegado do Arcebispado de Barcelona, Señor Marcel.Li Joan, realizou uma coletiva de imprensa para explicar os detalhes da autorização do Vaticano para a abertura do processo de beatificação de Gaudí, que poderá se tornar o primeiro santo arquiteto. A notícia foi recebida com entusiasmo no meio católico catalão. Mas esta história começou anos atrás, em torno de uma mesa, em Barcelona, em 1992.Os olhos do mundo se concentravam na capital catalã em razão dos Jogos Olímpicos. Um grupo de cinco amigos se reuniu para discutir com entusiasmo um grande projeto. Todos eram, cada um a seu modo, devotos de Gaudí.Conheciam a fundo sua vida, sua obra, seu pensamento, e sua espiritualidade exemplar. José María Almuzara era professor de desenho; Josep María Tarragona e Javier Fransistorra eram arquitetos e a eles se uniram o escultor japonês Etsuro Sotoo e o sacerdote Ignasi Segarra. Estes cinco amigos de Gaudí decidiram formar uma pequena associação: a Asociación Pro Beatificación de Antonio Gaudí.Anos despois, o Arcebispado de Barcelona aunciava que Lluis Bonet I Armengol havia sido nomeado defensor desta causa e passou a se dedicar com toda devoção no sentido de obter o reconhecimento deste arquiteto assombroso e legendário, à condição de Santo.Lluis Bonet falou aos jornalistas na Paróquia da Igreja Sagrada Família diante de três livros gaudinianos: um, com matérias publicadas na imprensa por ocasião de sua morte; outro, com reportagens publicadas durante o período em que viveu Gaudí e um terceiro, Gaudí, arquitecto de Dios.Segundo Lluis Bonet, o processo de canonização de Gaudí teve um avanço importante com a nomeação de um Tribunal para escutar os testemunhos de "pessoas que não o conheceram pessoalmente, mas se destacam por um conhecimento pleno de sua obra e de suas ações como ser humano". Paralelamente, há uma comissão de historiadores revisando os escritos sobre Gaudí, para tentar provar que ele se empenhou em ser um virtuoso.A grande questão, no entanto, é que Gaudí não fez milagres. "Não é que ele tenha feito milagres, disse Lluis Bonet, "Queremos que ele os faça na atualidade. Se pedirmos a ele, quando for preciso, segundo o caminho da lei religiosa, como parte de sua rota rumo à santidade".E que tipo de coisas pedem os devotos de Gaudí? "Há devotos de Gaudí que lhe pedem coisas, mas não se pode permitir o culto público a Gaudí, porque não foi autorizado pela Santa Madre Igreja, mas se permite a devoção privada, nada mais".Quando lhe perguntaram sobre o prazo para o processo de canonização, Lluis Bonet parodiou Gaudí quando lhe perguntavam quando terminaria a Sagrada Família: "meu cliente não tem pressa".Acirrada campanha pela beatificação de Gaudí - A associação pró-beatificação de Antonio Guadí com sede em Barcelona, faz circular há anos uma estampa da Igreja da Sagrada Família, com o perfil do arquiteto impresso em vários idiomas:"Antoni Gaudí Cornet nasceu em 25 de junho de 1852. Desde pequeno ele se familiarizou com os volumes e as formas na oficina de caldeireiro de seu pai, em Reus. Na casa rústica de sua família, em pleno Baix Camp, seus olhos azuis captaram as mais puras imagens da natureza, sua grande mestra.Terminado o bacharelato em Reus, cursou arquitetura, a grande paixão de sua vida, na Escola de Barcelona. Em 1883 recebeu a encomenda de realizar as obras da Igreja da Sagrada Família, iniciadas logo depois. Durante os 43 anos em que trabalhou na obra, e especialmente nos últimos dez anos de sua vida, o fez com dedicação exclusiva, pôs sua arte e todas suas energias a serviço da glória de Deus. Desde o início identificou-se com a finalidade religiosa e expiatória do templo, fundado pelo famoso livreiro Josep María Bocabella e sua associação Josefina.Gaudí tinha um caráter decidido e forte; mas era alegre e amigo das pessoas. Convencido de que, sem sacrifício, é impossível obter as coisas, entregou-se a uma vida austeríssima de orações e desprendimento. Amou a liturgia da igreja e foi devoto da Virgen Santíssima e de São José. Concebeu La Pedrera como um monumento à Virgen do Rosário.Gaudí havia manifestado seu desejo de morrer em um hospital rodeado de pobres, e esse desejo se fez realidade, quando foi atropelado por un bonde, e sem ser reconhecido foi visto como um pobre e levado ao Hospital de Santa Cruz, onde morreu em 10 de junho de 1926. Suas últimas palavras foram: "Amén, Dios mío". Sua tumba está na cripta da Igreja."

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