Barcelona misteriosa

Em Marina, Carlos Ruiz Zafón volta a destacar o suspense da cidade espanhola

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2011 | 03h07

O escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón tem o toque de Midas: seus livros vendem como água. A Sombra do Vento, por exemplo, já vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo, desde 2001. Uma narrativa cheia de mistérios é um de seus segredos, o que deve se repetir agora com Marina, trama em que um estudante se envolve com a jovem que inspira o título e com uma mulher que sempre visita o cemitério. E, novamente, Barcelona destaca-se como personagem. Sobre o romance, Zafón respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Você afirmou que Marina é um de seus livros favoritos. Por quê?

Creio que a razão desse particular afeto reside no fato de se tratar de um romance escrito em um momento da minha vida em que tinha a impressão de estar me despedindo da minha primeira juventude. É uma história que associo às recordações da infância, com uma Barcelona já desaparecida. Também é um romance produzido a distância (escrevi em Los Angeles). Difícil saber por que alguns livros resultam mais próximos do autor que outros. Acredito que as circunstâncias da escrita influem porque os romances são, para o autor, uma caixa de recordações que se converte em uma espécie de "cápsula do tempo".

Sua experiência como roteirista ajudou na escrita de Marina?

Creio que o trabalho como roteirista faz com que o escritor necessite desenvolver ferramentas e recursos narrativos úteis para um romance. Da mesma forma que um jornalista, ao escrever ficção, emprega elementos de sua formação. A experiência com roteiro faz com que se observem aspectos estruturais, de caracterização e construção de um modo muito específico. No caso de Marina, não sei se há mais ou menos impacto que nos outros livros. Um escritor necessita sempre trabalhar os aspectos técnicos a fundo e a aprender a narrar, a contar histórias, a moldar a linguagem, desenhar um estilo, empregar imagens, texturas, subtextos, etc.

Seus textos são formados, em boa parte, por uma linguagem figurada. Mas, em Marina, as palavras são mais fantásticas e até macabras. Por quê?

Marina é, entre outras coisas, um conto gótico, uma narrativa fantástica que joga com algumas convenções do gótico vitoriano. Isso explica a atmosfera crepuscular, sinistra e macabra, de algumas partes. A linguagem e o estilo são ferramentas utilizadas pelo autor para servir à trama, a seus personagens e ao mundo que quer criar.

Em um mundo sem fronteiras e devassado por canais de notícias como CNN e Fox News, a aventura ainda é possível?

Eu me atreveria a dizer que, em um mundo onde a "realidade" está nas mãos de CNN e Fox News, o desconhecido não apenas é possível como cresce de modo exponencial. Se algo define o mundo contemporâneo é a ausência de realidade, de sinceridade e de honestidade no manejo da informação. Pode-se assistir à CNN e Fox News durante 12 horas e não receber um único impacto da realidade objetiva. Se há algo que podemos aprender com o atual mercado da informação é que a verdade é mais rara que ouro branco.

O mal é aliado da literatura?

A literatura é uma arte, um prazer e um ofício. O mal, sozinho, é aliado de si mesmo e, lamentavelmente, está presente em todos os aspectos da vida. Cabe à literatura, e à beleza em geral, tornar suportável a convivência com o mal.

Você crê que o poder das redes sociais e ferramentas eletrônicas vai alterar a literatura?

Não acredito que isso vai modificar a literatura. O que já vem mudando (e, em alguns casos, de forma radical) é o modo de distribuição da informação e dos chamados "produtos culturais" como livros, música, cinema. Isso pode influenciar a confecção desses "produtos", mas a literatura, a arte e a necessidade de narrar, de trabalhar o mundo das ideias, da linguagem, é algo que existe há muitos séculos. Faz parte da vida e da natureza. Em cem ou mil anos, a humanidade continuará compartilhando histórias, personagens, ideias, estilos, beleza, independente da tecnologia vigente. Se tivessem dito a Charles Dickens que seus livros poderiam ser comprados por algo chamado Amazon.com, ele teria achado estranhíssimo e, desde então, a literatura não mudou tanto. O suporte é a novidade, não o conteúdo. A pirataria, sim, é um grande perigo para a produção cultural. É preciso que se entenda que o respeito à propriedade intelectual é necessário para evitar seu desaparecimento. Ou seja, as pessoas que baixam música e livro ilegalmente põem em risco toda essa produção. Se há alguma traição que ameace a tecnologia digital, essa é a pirataria. O passado estará nas mãos de todos caso, no futuro, todos evitem esse assassinato.

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