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Barbárie ou civilização: cabe decidir

Era um encontro mundial sobre saúde da mulher no Rio de Janeiro, no ainda bem disposto Hotel Glória, meados dos anos 1990. A jornalista, às voltas com mil e uma possibilidades de boas matérias, encanou de conversar com uma doutora de Burkina Faso, país africano na região do Saara. Diziam que a mulher era uma estudiosa da mutilação genital feminina. O quê? Sabia-se pouco sobre uma realidade tão estranha aos nossos trópicos - embora sejam trópicos tão pródigos em estranhezas.

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h40

Numa varanda do Glória, a jornalista se deparou com a mulher negra corpulenta, envolta em panos ultracoloridos, deusa africana "empoderada" em fóruns internacionais, com sólido discurso sobre um crime cometido milenarmente contra meninas e mulheres. Diante da pergunta técnica da repórter, como se faz uma mutilação dessa natureza?, o empoderamento da doutora não durou um minuto. Vi desmontar a ativista que, como as mulheres de sua família, em diferentes gerações, passou pelo suplício. Guardo na memória seu olhar de tristeza e humilhação ao se confessar uma vítima.

Dias atrás, o jornal The Guardian entrou com força numa campanha contra a mutilação genital feminina (comumente tratada como FGM, sigla para female genital mutilation), e o fez já cortando de saída aquela fleuma britânica que dilui em contida polidez o que é simplesmente um escândalo. Em editorial, o diário denuncia haver no Reino Unido cerca de 66 mil vítimas desse tipo de violência e pelo menos 20 mil jovens ameaçadas de passar pelo mesmo sofrimento nos próximos tempos, por imposição de suas famílias.

São meninas abaixo de 15 anos, filhas e netas de imigrantes, a grande maioria com origens numa geografia que abrange não só África, mas Oriente Médio, Ásia e Indonésia. Nasceram na Grã-Bretanha ou têm cidadania inglesa, no entanto, continuam sendo mutiladas dentro de casa ou em locais clandestinos nos domínios de Sua Majestade. Há também casos em que as famílias as levam aos países de origem, a propósito de férias e/ou visita familiar. Lá consumam o ato e daí voltam ao Reino.

A campanha deflagrada pelo Guardian ganhou um rosto inesperado, coberto pelo véu islâmico. Trata-se de Fahma Mohamed, estudante inglesa de 17 anos, que chegou aos 7 da Somália, a bordo de uma família com pai, mãe e nove filhas. Em vídeo postado no site do jornal, Fahma olha para a câmera e fala diretamente a Michael Gove, secretário de Educação do gabinete Cameron. Trata de informá-lo que a mutilação genital existe na Grã-Bretanha e cobra dele que escreva para todas as escolas primárias e secundárias do país, determinando que professores e pais troquem informação abalizada sobre o tema. E que isso ocorra já, antes das férias de verão, marcadas para o meio do ano, quando as meninas sempre correm mais risco. Desde 1985, há uma lei inglesa estabelecendo que a mutilação genital feminina, eufemisticamente tratada como circuncisão, é crime. A lei francesa, tão antiga quanto, tem sido ao menos aplicada, o que se confirma por alguns julgamentos exemplares. No Reino Unido, nada.

O mundo da FGM é sórdido, e não me deixarão na mão aqueles que estudam o problema. Não se pode atribuir essa prática a questões de fé, incluindo nesse campo as três grandes religiões monoteístas, que são balizadoras de boa parte da humanidade. No limite, o que se pode admitir é a persistência de tradições culturais arraigadas, que ainda hoje encontram respaldo em sociedades patriarcais. O que não justifica, em absoluto, o abuso perpetuado com o propósito único de controlar a sexualidade e o corpo da mulher.

Documentário feito no Quênia mostra como comunidades lidam com isso. De um lado, falam os homens, jovens homens, inclusive, justificando a necessidade de "operar" as mulheres antes do casamento. Dizem que só assim elas ficarão puras para eles. O que terão inoculado nas mentes destes pobres diabos, que só se satisfazem ante a certeza de que sua parceira jamais vai experimentar o prazer? De outro lado, falam as mulheres que realizam as tais operações, até como meio de vida, no meio daquela pobreza. As mutiladoras, respeitadas socialmente, exibem com naturalidade um arsenal de objetos cortantes e seus modos de uso em condições de total falta de higiene.

Explicam que a "circuncisão" pode ser mais restrita ou mais radical no estrago anatômico, digamos assim, de acordo com o que lhes é encomendado. Daí as "pacientes" são deixadas sangrando no correr de uma festa marcando o rito de passagem para a vida adulta - e muitas sangram até a morte. São pavorosos os relatos das sobreviventes da FGM que passam pela experiência do parto. Sabe-se que muitas não resistem ao dar à luz, assim como seus bebês. É um soco no estômago, ouvir essas mulheres, sejam elas vítimas consumadas ou potenciais. Dentre as últimas, há as que ainda ousam tentar escapar. A única maneira é fugindo de casa rumo ao desconhecido, entregues à própria sorte ou à falta dela.

Cabe, então, a pergunta: por que nós, por aqui, deveríamos nos preocupar com esse drama humano, quando tantos outros batem à nossa porta cotidianamente? Duas respostas saltam de imediato. Primeira resposta, para que vejamos como a barbárie não faz a menor cerimônia em conviver com o mundo civilizado. Ou altamente civilizado - e que o diga a jovem Fahma, que precisou contar ao secretário da Educação aquilo que ela vê acontecer entre as colegas de classe, num dos melhores sistemas de ensino do mundo. Segunda resposta, porque a FGM se tornou um problema global.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula em 125 milhões o número de mulheres e meninas "cortadas", vivendo em 29 países majoritariamente, sem falar na dispersão silenciosa pelo planeta. Em sua Recomendação Geral n.º 14, o Comitê para a Eliminação da Discriminação Contra a Mulher, da ONU (UN-CEDAW), encabeçado pela jurista brasileira Silvia Pimentel, tem cobrado compromissos dos governos para a erradicação da prática, ao mesmo tempo em que propõe iniciativas envolvendo sistemas de saúde, redes de ensino, organizações da sociedade civil, o mundo acadêmico. Mas o problema existe e persiste, sobressaindo-se desde já na galeria dos maiores abusos aos direitos humanos neste século. Aqui, também, cabe decidir: de que lado estaremos? Da barbárie ou da civilização?

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