Barba,o revolucionário

Em nova visita ao Brasil, o diretor italiano faz defesa firme do teatro como instrumento de transformação no mundo

Guilherme Conte, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Fosse um roteiro de cinema, a vida do diretor italiano Eugenio Barba ganharia aos olhos da crítica ares de realismo quase fantástico. Nascido na cidade de Brindisi em 1936, passou a percorrer caminhos bem distintos. Formou-se em uma academia militar, mas imediatamente abandonaria as pretensões fardadas. Mudou-se então para a Noruega, para logo estabelecer-se em Oslo, onde estudaria literatura francesa e norueguesa, além de história da religião.

Em 1961, fez as malas novamente, desta vez para Varsóvia, a fim de estudar direção teatral. Os bancos das universidades, porém, definitivamente não eram seu ambiente mais querido. Um ano após a matrícula, Barba tomaria uma decisão capital para os rumos de sua vida (e do teatro contemporâneo) ? juntar-se ao Teatr 13 Redow, liderado pelo lendário diretor polonês Jerzy Grotowski (1933-1999), o papa do chamado "teatro laboratório".

Em 1963, após deixar o grupo de Grotowski, viajou à Índia, de onde voltou decidido a formar seu próprio grupo. No ano seguinte, juntou-se a um grupo de amigos com uma particularidade: todos haviam sido rejeitados como alunos da Escola de Teatro do Estado de Oslo. Nascia ali o Odin Teatret, que desde então passou a ter ao redor de si uma mitologia cara a jovens atores com aspirações criativas mais libertárias.

Um eterno estrangeiro, Barba tem a fala mansa e um olhar curioso ? e carinhoso. Parece transparecer a todo instante a calma daqueles que dedicaram toda uma vida a ideais que lhes são inegociáveis, sem abrir concessões. "Vida inteira" em termos, já que seu ritmo de criação não arrefece. Na conferência que deu anteontem a um público majoritariamente composto por estudantes de teatro, durante a passagem de um só dia pela cidade, Barba começou a contar uma história para ilustrar um ponto que defendia. "Há dois meses, eu estava em uma praia em Taiwan..." Pouco depois, refere-se a outra praia, na qual tomava sol durante raras férias ? no México. O mundo, vê-se, parece bem pequeno para ele.

A reportagem do Estado conversou com Barba em uma sala da São Paulo Escola de Teatro, após um encontro com frenéticos alunos. Em pauta, o papel do teatro de grupo, a natureza do ofício do ator e a saudade de um velho amigo querido: o diretor Augusto Boal, entre outros temas. Os cabelos estão todos brancos, mas os olhos brilham com um fulgor de criança.

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