Baravelli expõe jogo de dualidades em SP

A safra recente de pinturas de Luiz Paulo Baravelli, reunidas na individual Interior/Exterior, promove o encontro de dois tempos em sua trajetória: de um lado, o passado de sua pintura de referências pop e grafismos virtuosos; de outro, o momento atual marcado pelas experimentações com a moldura e os limites por ela impostos, com os quais ele passou a dialogar de forma mais produtiva em meados de 1990.A mostra será inaugurada hoje, na Galeria Nara Roesler, com cerca de 30 quadros em que a tônica é um infinito jogo de dualidades, em oposições bem calculadas, que o próprio artista relaciona: opaco/transparente, desenhado/decalcado, orgânico/inorgânico. E indo um pouco além: passado/presente, conceitual/espontâneo, privado/público, cultura/natureza, arte/vida.Não só a forma irregular da moldura incide sobre o que é pintado, ajudando a construir aqueles espaços, mas também os objetos figurados conformam os limites do quadro, criando um diálogo incessante entre o mundo artificial de Baravelli e o mundo real.Este desejo da pintura de ultrapassar os limites impostos pelo artista e prosseguir seu caminho dá origem a um terceiro movimento, que vem da conexão estabelecida entre uma obra e outra, quase seqüencialmente - o que não quer dizer que a exposição forma uma grande narrativa, mas sim que todas as obras são sutilmente contaminadas por ela.Pop e kitsch - Outra chave possível para se aproximar desses novos trabalhos de Baravelli é a passagem - nada sutil - que ele busca estabelecer entre o "interior" (representado por salas de estar, quartos, cozinhas e banheiros) e o "exterior" (jardins, piscinas, galpões, pequenos bosques).Seja por meio de um espelho, uma janela, porta ou até um quadro de Mondrian, o artista faz com que o espaço tridimensional que ele criou seja atravessado por essas lâminas carregadas de sentido, que organizam a pintura de maneira decisiva. Além de construir um jogo de simetrias entre os vários momentos dentro de um mesmo quadro, "rebatendo" as figuras para as inserir em um lugar diverso e com isso transformar seu sentido.Esse recurso funciona ainda como um canal de diálogo com o espectador, espécie de vocabulário próprio a estabelecer similaridades e diferenças, uma "ferramenta" que auxilia a aproximação. "Se dentro de um desses recortes aparece um quadro, levando suas convenções, a existência desse par abre um apoio para o espectador projetar aí dualidades que trouxe de casa", afirma o artista. "Aos substantivos da pintura ele vai acrescentar seus adjetivos e advérbios."Outro mecanismo utilizado pelo pintor é dar ao espectador a possibilidade de construir pequenas histórias no interior dos trabalhos, uma vez que eles são carregados de referências urbanas, da Bela Vista e da Mooca, do pop brasileiro dos anos 60 (as "pin-ups"), do kitsch, da história da arte e até da iconografia típica das Páginas Amarelas, cujos populares anúncios de box para banheiro, tapetes, portas envidraçadas e cabeleireiros são uma prolífica fonte para os interiores Baravelli."Essas pinturas não são exatamente cenas, mas narrativas", confessa ele. "Contam no lugar de mostrar e por isso não são janelas e sim estruturas que às vezes incorporam a noção de capítulos, da literatura, ou dos movimentos de um concerto musical."Por fim, Interior/Exterior deixa escapar certa nostalgia, de um Brasil distante, modernista e racional, controlado e passível de controle. Mas também de um passado não tão longínquo, a São Paulo dos anos 60 e 70, quando a cidade ainda vislumbrava a possibilidade de alguma espécie de troca, em sentido amplo, entre seus interiores e o mundo lá fora.Nesse sentido, Baravelli cria espaços idílicos, lugares ideais onde não se vê indícios da São Paulo completamente murada e blindada do século 21 e que hoje sobrevivem apenas como testemunho de uma época.Luiz Paulo Baravelli. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. Avenida Europa, 655, tel. 3063-2344. Até 7/6. Abertura às 21 horas.

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