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Bar da esquina apresenta: Paul McCartney

Estivemos no show que o beatle fez em Londres para apenas 300 pessoas com a intenção de 'salvar' um clube

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

Meu filho, também Roberto, nasceu em 29 de dezembro de 1980, vinte dias depois da morte de John Lennon. Foi dos primeiros da primeira geração de órfãos dos Beatles. No seu terceiro aniversário, ganhou uma festa inspirada no Submarino Amarelo. Jornalista, baixista, foi exposto a todas as ondas musicais que massacraram o mundo nas décadas de 80, 90 e 00, mas manteve uma preferência inabalável por Beatles, Stones e Bob Dylan. Na sexta, 17 de dezembro, Roberto pegou um avião em Dublin (onde mora há três anos) e foi a Londres assistir ao show mais intimista de Paul McCartney neste século, para 300 pessoas. Eis o seu relato:

A multidão que enfrenta a neve na hora do almoço em Oxford Street não desconfia de que por trás da porta do número 100 há um beatle no porão. Aproveitando uma série de dois shows mais intimistas programados para Londres e Liverpool, Paul McCartney aderiu à campanha pela salvação do lendário 100 Club, ameaçado de fechamento, fazendo ali uma apresentação para 300 pessoas. Os ingressos evaporaram em segundos, tive a sorte de conseguir um deles. As 68 libras (cerca de R$ 180) cobradas eram, na verdade, um preço simbólico: a oportunidade de ver um beatle tocando numa casa tão pequena não podia ser medida em dinheiro.

O piano de cauda ocupava quase metade do palco, no qual Sir Paul e a banda pisaram por volta da uma da tarde. "Desculpem a demora, ficamos presos no trânsito". Tira o casaco, o cachecol, boceja e se desculpa: "É um pouco cedo para isto, não acham?" E dá a partida com Matchbox, de Carl Perkins, escolha ideal para um show que, segundo ele, o faria lembrar dos dias do Cavern Club. Sir Paul segue o conselho que seu tio Mike deu a ele e a John e constrói o set no formato de um W, começando à toda, entrando depois em números mais lentos, acelerando de novo e, após uma breve pausa, encerrando no ápice. Embora mais curta, a estrutura é semelhante à dos recentes shows no Brasil. Paul considerou a primeira apresentação em São Paulo um de seus grandes momentos do ano. Depois de Magical Mistery Tour, Jet e Drive My Car, a plateia - a cerca de três metros de distância do beatle - vislumbra o que teria sido um concerto dos Beatles no Cavern Club, quando Paul e a banda tocam All My Loving. "Estar aqui me faz lembrar de quando começamos. E esta canção foi composta antes de começarmos", diz ele, apresentando One After 909. Ainda no clima de clube pequeno, chega a vez de Honey Hush, que Paul dedica a Mick Green, grande guitarrista morto em janeiro desse ano.

É hora de desacelerar: martelando o piano, Paul leva 300 pessoas às lágrimas com The Long and Winding Road, 1985 ("Esta é para os fãs do Wings") e Maybe I"m Amazed. "Esse tipo de apresentação nos dá a oportunidade de incluir algumas canções que não tocamos normalmente", diz antes de Don"t Let The Sun Catch You Crying. "Quer vocês gostem ou não", acrescenta. Mudando para o violão, é hora de Blackbird, Calico Skies, I"m Looking Through You e, de volta ao período inicial dos Beatles, And I Love Her. Já com o mandolim, Paul dá início a uma novidade: Petrushka, uma improvisação tocada de brincadeira nas passagens de som que acabou entrando de vez no repertório. Depois de Dance Tonight e Eleanor Rigby, uma última surpresa: Hitch Hike, de Marvin Gaye, que a banda havia tocado pela primeira vez uma semana antes, no lendário Apollo Theatre, no Harlem. Naquela ocasião, os velhos fantasmas do teatro interferiram e a execução foi interrompida algumas vezes. Agora, no 100 Club, tudo foi impecável.

Seguem-se Band On The Run, Ob-la-di, Ob-la-da, Let it Be e o encerramento com Hey Jude, levantando o já tradicional coro do público. Eram apenas 300 vozes, mas naquele pequeno ambiente ecoavam como se fossem 30 mil. O bis começa sem surpresas, com Yesterday. De brincadeira, Paul começa a cantar, a cappella, Scrambled eggs, a letra provisória de Yesterday - ele acordou um dia com a melodia já pronta na cabeça e, para não a esquecer, valeu-se do Scrambled eggs. Ainda há tempo para Get Back e a dobradinha Sgt. Pepper''s Lonely Hearts Club band/The End antes de Sir Paul deixar o prédio de vez. Em sua luta para sobreviver, o 100 Club - que fica a um quilômetro do prédio da Apple, em cuja cobertura os Beatles tocaram juntos pela última vez em 1969 - dificilmente poderia ter encontrado um defensor mais prestigioso. Os tempos mudaram e nada pode ser comparado ao concerto mítico de 40 anos atrás. Em 2010, porém, a apresentação no número 100 da Oxford Street talvez seja o mais próximo que um fã dos Beatles possa chegar daquela fantástica experiência."

O ingresso do show de Londres caiu do céu para meu filho. Mas ele já havia comprado ingresso para a última apresentação do ano de Paul McCartney e, na segunda-feira, 20 de dezembro, pegou de novo um avião em Dublin para Liverpool. Ao taxiar na pista, o avião já estava coberto de neve e por pouco não decola. Ele conta:

A previsão era de que as portas da O2 Academy abrissem às 17h45 para o público que adquirira, por 425 libras (R$ 1.100), um pacote especial, incluindo crachás, camisetas promocionais e outros badulaques, mas um atraso na passagem de som obrigou as pessoas a suportarem a temperatura de dez graus negativos por mais uma hora. Tentando amenizar o problema, a produção distribuiu café, chá e batatas fritas para os que aguardavam na fila. Depois do show quase particular no 100 Club, até mesmo a pequena casa de espetáculos de Liverpool - 1200 assentos - parecia enorme. Por ser a última apresentação do ano, exatamente na cidade natal de Paul, a expectativa da plateia era palpável. Embora mais uma vez tecnicamente impecável, o Beatle seguiu à risca o roteiro da atual turnê, com singelas mudanças no repertório. A maior surpresa talvez tenha sido uma goteira que se formou no palco, arrancando risos dos músicos. Mesmo assim, a força das composições de Sir Paul e seu inegável carisma foram suficientes para que, ao acender das luzes, após o número final com The End, 1.200 sorrisos ganhassem as ruas de Liverpool.

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