Eleonora Alberto/ Divulgação
Eleonora Alberto/ Divulgação

Banquete dos espíritos

Consagrado nos EUA, o percussionista Cyro Baptista chega a SP para mostrar sua antropofagia de sons e ritmos

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

Certa vez, enquanto fazia turnê com Herbie Hancock, Cyro Baptista perguntou ao patrão se estava satisfeito com seu trabalho. Do alto de sua sabedoria jazzística, Herbie respondeu: "Olha, Cyro, você nunca será demitido da minha banda por errar no palco. Mas se você não errar, talvez seja", lembra o percussionista em entrevista ao Estado, falando dos Estados Unidos, onde mora há 30 anos. Cyro levou a conversa a sério e, desde então, seja em parceria com bambas do free jazz nova-iorquino, ou em elogiados trabalhos-solo, extrapola com êxito os limites de gênero e linguagem através da improvisação livre, sem medo de errar. Já foi incluído nas listas de melhores do ano do New York Times, da revista The Wire e acaba de ganhar, pela segunda vez, o prêmio de percussionista do ano pela revista Downbeat. Nesta quinta-feira, Cyro traz sua nova banda, Banquet of the Spirits, ao Sesc Pompeia, antes de seguir para o nordeste, onde também apresentará o disco Caym, em que faz leituras de obras do compositor vanguardista John Zorn, herói do underground nova-iorquino. Caym tem ares de jazz, mas é o choro e o baião, auxiliados por timbres do gamelan da Indonésia e escalas do Oriente Médio, que dão estrutura às composições: uma miscelânea musical que resume o espírito antropófago, talvez a qualidade mais brasileira de Cyro, que permeia sua música. O caldeirão estilístico tem origens em 1980, quando o percussionista chegou em Nova York para estudar música em uma fazendinha perto de Woodstock. Liderado por mestres como Don Cherry, Jack DeJohnette e Naná Vasconcelos, de quem Cyro viraria discípulo, o curso era uma espécie de Kibutz da música livre. E Cyro, sempre a ovelha negra nos tempos do colégio, encontrou sua turma. "Tinha gente de todo lugar. África, Europa, Brasil", conta. "A gente fumava maconha o dia inteiro e, em vez de ficar naquele papo de "minha música é melhor que a sua", percebemos que se mudássemos uma nota aqui, atrasássemos outra acolá, dava para todo mundo tocar junto. Foi assim que surgiu o movimento de world music no jazz", explica. Tanto em Caym como em seu famoso coletivo Beat the Donkey (Pau na Mula), uma mistura de performance e música livre comparável a um bloco de jazzistas carnavalescos, que botou Cyro no mapa da vanguarda nova-iorquina, a palavra de ordem é a mistura. Nos shows do Beat the Donkey, que o leitor talvez conheça da cena final de O Casamento de Raquel, filme de Jonathan Demme, Cyro faz uma geleia de música e performance que incorpora dançarinos, roupas alegóricas, instrumentos feitos a mão e ritmos que vão do maracatu ao funk carioca. À frente do grupo, como uma espécie de maestro lunático, meio Frank Zappa, meio Curly, de Os Três Patetas, Cyro conduz os devaneios percussivos de seus músicos. "Eu sempre tive a coisa da performance", conta Cyro. "A cena paulistana do Bexiga. a encenação de O Cemitério dos Automóveis, O Living Theatre, que revolucionou o teatro nos anos 70 e que eu assisti antes de vir para Nova York, Tudo isso me influenciou muito. Quando montei a banda, veio tudo junto". Mas a espontaneidade de seus projetos pode ofuscar o lento processo de maturação que transformou Cyro de músico acompanhante em vanguardista de renome. Depois de suas aventuras na fazenda do jazz, em Woodstock, passou dificuldades em Nova York. Dormiu no metrô e quando conseguiu garantir algum, foi morar no Lower East Side, na época reduto de viciados, prostituas, traficantes e, logicamente, a vanguarda criativa da cidade.

No ápice de suas respectivas criatividades estavam músicos como Anthony Braxton, Marc Ribot e John Zorn, com quem Cyro colaboraria frequentemente. "Foi uma porta que abriu para mim. Eu estava cansado de tocar com a Bebel (Gilberto) e ter obrigação de ser brasileiro. Quando descobri o free jazz, vi que podia fazer o que quisesse. Ninguém esperava nada de mim. Esse conceito de ser brasileiro e ter que manter sua identidade em outro país foi se dissipando. Claro que eu tenho raízes fortíssimas no Brasil", conta. "Mas as pessoas perguntam de onde sou e eu respondo: Eu sou da daquele palco em que estou tocando na hora em que me perguntam. O Brasil é uma coisa tão distante. Penso no meu país todos os dias, mas não sei o quanto a minha música cabe aí. O Villa foi tocar no Brasil e jogaram ovo nele. Ovo podre", completa.

CYRO BAPTISTA

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. 5ª, 21 h. R$ 16.

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