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Banheiro e democracia

O debate sobre banheiros e cidadãos transgêneros, como muitos que começam nos Estados Unidos, deixa o público externo inicialmente um pouco desconcertado. É possível ser ardente defensor de igualdade para minorias sexuais e, ainda assim, admirar a intensa mobilização sobre questões em que a identidade individual se torna debate nacional.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2016 | 02h00

Foi assim com o casamento gay. Na questão da união entre pessoas do mesmo sexo, a vitória se deveu, em parte, à inteligente decisão de destacar que se tratava de uma luta pró-estabilidade da família, ao contrário do debate sobre o aborto, em que conservadores sequestraram o slogan “pró-vida”, enquanto alguns de seus militantes matavam médicos em atentados terroristas.

Na semana passada, o presidente Barack Obama emitiu uma ordem, via Departamentos de Educação e Justiça, determinando que todas as escolas públicas permitam a alunos transgêneros usar o banheiro que combine com a identidade que escolheram. Obama não pode passar por cima dos Estados com a lei, mas pode ameaçar cortar preciosas verbas federais dos que continuarem a manter a discriminação.

A polêmica foi exacerbada quando, em março, a Carolina do Norte aprovou a chamada “Lei do Banheiro” com restrições ao acesso de transgêneros aos banheiros públicos. Um movimento de boicote econômico e cultural incluiu cancelamentos de shows de Bruce Springsteen e da banda Pearl Jam. Agora, a Carolina do Norte e o governo federal estão se processando mutuamente.

A gritaria provocada pela decisão de Obama – diga-se de passagem, um ato ousado de quem está em fim de governo e não vai mais concorrer a nenhuma eleição – já era a esperada. Não foram apenas conservadores fanáticos pela primazia do heterossexualismo que ergueram suas vozes. Por se tratar de uma mudança que inclui crianças, pais liberais e pró-igualdade para minorias sexuais alegam que a medida provoca desconforto em alunos não familiarizados com a identidade transgênero.

É impossível, com base nos atuais censos periódicos, determinar a população transgênero nos Estados Unidos, por uma série de fatores, entre eles, a intimidação que faz muitos viverem sua sexualidade de forma clandestina. Sabe-se que apenas uma minoria registra um novo nome em documentos públicos. A última pesquisa acadêmica é de 2011 e estima que 700 mil norte-americanos se identificam como transgêneros, ou seja, 0.3% da população. Em matéria de minoria, é difícil encontrar outra com uma ladeira antidiscriminação tão íngreme.

Como se espera, a mídia conservadora cristã apela para o sensacionalismo, acusando Obama de facilitar crimes sexuais, aumentando risco de que estudantes sejam abusados em banheiros, quando jovens mentirem sobre seu gênero para atacar meninas. Mas pesquisas mostram que a maioria dos transgêneros está sob risco de se tornar vítima de predadores sexuais em banheiros.

Depois que homossexuais acalmaram o público manipulado a medo brigando para formar famílias, o grande desafio dos transgêneros, num país ainda tão religioso, é vencer a associação entre identidade sexual transgênero e perversão. Ela está no centro de boa parte do preconceito e do temor contra esta minoria.

Há também a questão da adolescência, um período de intensa angústia com o corpo. E o fato de que banheiros, às vezes, são o local onde estudantes que praticam esportes trocam de roupa. No meu bairro, em Manhattan, um time de nadadoras parou de usar um vestiário de uma piscina da prefeitura depois que encontraram uma pessoa adulta barbada no chuveiro. Nova York é uma das cidades com leis mais progressistas em relação a alunos transgêneros. Mas a idade há de ser um fator na acomodação da democracia com a luta para proteger a humanidade de uma minoria.

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