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Bando

Quando é que um grupo se transforma em bando? Quando é que um bando se torna incontrolável?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 03h00

Sempre que o time deles jogava em casa, a rotina se repetia. Churrasco na casa do Binho (todos levavam cerveja), uma batucadinha (modesta, de bumbo, caixeta e cavaquinho), depois o grupo saía na direção do estádio, em paz. Mas o grupo tem aumentado, e na última vez que se reuniu, neste fim de semana, já era um bando. Medido pela quantidade de cerveja consumida.

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O Binho se preocupou. A coisa estava fugindo ao controle. Não era o aumento do volume de carne servido nos seus churrascos, mesmo porque a maioria dos novatos preferia bebida a comida. O problema, para o Binho, era o tamanho crescente do grupo. Quando é que um grupo se transforma em bando? Quando é que um bando se torna incontrolável? 

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Neste fim de semana aconteceu o que o Binho temia. Na chegada ao estádio parte do bando se envolveu numa briga. Por uma bobagem, por nada. Briga de facções da mesma torcida. Briga de bêbados. Mas grave o bastante para aparecer no noticiário da TV.

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O Binho ameaçou acabar com os churrascos na sua casa. Acabar com as cervejas, acabar com as batucadas, acabar com as reuniões do grupo antes que ele se radicalizasse. O Paulão protestou.

- Pô, Binho. Acabar com o grupo?

- O grupo não é mais grupo. Está virando bando.

- E a tradição, Binho?

- Você não viu a TV, ontem? As brigas? A violência? O futebol não é isso.

- Mas aquilo na TV, ontem, era Barcelona.

- Eu sei. Mas também era violência sem sentido.

- Sem sentido, não.

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Paulão era um dos mais antigos do grupo. O que tocava cavaquinho e era chamado de Paulão do Cavaco. Ou Paulão Cabeça.

– As manifestações em Barcelona tem sentido – continuou Paulão. – As do Chile também. As de Hong Kong também. As do Líbano também. As causas são diferentes, mas a revolta é a mesma.

– Sei lá – disse Binho.

– Você não acha que falta revolta no Brasil também, Binho?

– Não sei. 

– Você acha que a falta de revolta no Brasil, ou só haver revolta e violência em entrada de estádio, é bom ou é ruim?

– Sei não.

 

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