Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Bandeiras do Bituca

Milton Nascimento declara apoio a movimento das ruas e diz esperar convite para abraçar uma carreira de ator

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2013 | 02h21

Colocar em evidência a projeção de uma obra tão rica até faz Milton Nascimento romper com seu jeitão introspectivo. Não é de efemérides, no entanto, que seu olhar vai brilhar de fato. Milton gosta mesmo é de contar histórias: rever o tempo e falar dos amigos. Quando fala de si, chega a pedir desculpas. Mas quando o assunto é Elis Regina, Mercedes Sosa, Gilberto Gil e o pessoal do Clube da Esquina, os argumentos se multiplicam na sua boca e voz privilegiadas. Amanhã e na sexta, no HSBC Brasil, ele irá dividir com o público paulistano as passagens musicais que marcaram seus 70 anos de vida e os 50 de carreira, no show Travessia.

Em visita à sede do Estado, ele concedeu entrevista de pouco mais de uma hora nos estúdios da Rádio Estadão. Recorreu suas memórias, opinou sobre os protestos, falou sobre o futuro e foi interpelado por jornalistas e amigos de estrada, como Lô Borges. "Com essa empadinha de queijo tudo fica mais fácil", confessa, sem nunca disfarçar a mineirice.

Como você vê este momento do Brasil, com essa onda de manifestações?

Milton Nascimento - Na semana passada, eu estava em Curitiba e foi quando vi que estes protestos estavam ocorrendo pelo País. É um negócio muito forte e bom. Parece mesmo que o Brasil acordou. Pena que tem os baderneiros que se aproveitam no meio de tanta gente boa e bonita. Tão querendo atrapalhar, mas não vão conseguir. Eu tenho acompanhado tudo. As coisas que a Dilma propôs são fantásticas. Eu dou meu apoio a ela e às pessoas deste movimento.

A classe artística precisa se posicionar?

Milton Nascimento - Precisa se pronunciar e se fazer presente em momentos como este. Eu já passei por muitas coisas, mas isso não quer dizer nada. Eu estou aqui de novo e toda vez que precisarem de mim, estou à disposição.

No show do Rio, no último fim de semana, você entrou abraçado numa bandeira do Brasil...

Milton Nascimento - Sim. Tem uma música chamada Credo, minha e do Fernando Brant, que fala sobre ter fé no nosso povo. No meio do show, alguém jogou uma camiseta com o lance dos 20 centavos. Foi algo que me deixou maluco e no bis eu voltei com ela. É o que posso fazer por enquanto.

Julio Maria: Qual foi a música mais difícil que você fez em toda sua história?

Milton Nascimento - Uma que meu deu muito trabalho foi Saudade dos Aviões da Panair. Foi assim: eu acordei às 9 da manhã e fui direto pra sala num apartamento que não tinha nada, em Copacabana. Só tinha fogão, geladeira, um negócio para eu dormir no quarto, além do piano. Eu fiquei ali o dia inteiro só com o eco. Eu adoro o eco, sou fã. Insisti nesta música até umas seis da tarde. Quando estava cansado, decidi ir pro quarto e olhar para o teto. No caminho, no momento que ia entrar nele, eu olhei para trás e vi o piano. Aí fiz de imediato outra música, que é Ponta de Areia. Eu não estava pensando em fazê-la, mas eu estava com tanta coisa na cabeça por conta daquela primeira que acabou saindo as duas.

Foi Truffaut o "culpado" em transformá-lo em compositor?

Milton Nascimento - O cinema sempre foi uma coisa extraordinária em minha vida. Quando eu me mudei para Belo Horizonte, era amigo do Marcinho Borges e a gente ia em todos os filmes. O Marcinho tinha uma mania de querer que eu compusesse, mas eu não queria. Um dia encontrei com ele na rua e fomos para o cinema. Entramos numa sessão às 14h e só saímos às 22h. Estava passando Jules et Jim. Quando a gente saiu, fui atrás do Marcinho e disse: "Vamos lá para sua casa, vou pegar um violão, você vai pegar um caderno e vamos começar a fazer música hoje!". Saíram três canções.

Quais?

Milton Nascimento - Novena, Crença e Gira Girou.

Lô Borges: Você concorda com a frase do Villa Lobos que diz que o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro?

Milton Nascimento - Tem realmente a ver. Se eu estiver sozinho em casa para compor, eu não componho. Tem que ter meus afilhados, crianças. Esse negócio do barulho do bonde e do trem faz parte da minha vida e da minha música. De fato, tem que ter bagunça para eu compor.

Vocês tinham a noção que o Clube da Esquina era histórico?

Milton Nascimento - Minha única certeza era que eu adorava aquilo que estava fazendo. Quem ajudou a bancá-lo junto à gravadora foi o Adail Lessa, conhecido como o pai dos músicos. O pessoal da minha gravadora não queria, mas ele convenceu os diretores.

Por que o Clube não chegou a ter o mesmo reconhecimento de movimentos como a bossa nova ou a Tropicália?

Milton Nascimento - A imprensa tinha aquele negócio de descer a lenha com coisas novas. E fizeram isso, tentaram acabar com ele.

Como está sua voz hoje?

Milton Nascimento - Segundo as pessoas que entendem, está melhor do que nunca (risos).

E pra você?

Milton Nascimento - Eu não acho mal. Estou feliz com minha voz.

Quais são suas ambições daqui pra frente?

Milton Nascimento - Eu quero continuar a compor. Queria também trabalhar como ator. Sempre gostei de teatro e quando eu morei em São Paulo trabalhei com o Plínio Marcos numa peça. Gosto muito! Ainda participei do filme do Herzog, Fitzcarraldo. Foi uma das coisas mais maravilhosas que aconteceram na minha vida. Sempre digo: tem um ator aqui esperando o convite de um diretor!

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