Banda investe no ''Rock in Rua''

Usando uma guitarra, baixo, bateria e um gerador de energia capaz de manter amplificadores ligados por uma hora com um litro de gasolina, Rafael Castro e os Monumentais querem chegar aos ouvidos de quem faz o caminho de casa ou do trabalho. Tocar em ruas e praças foi a maneira encontrada pela banda para se fazer ouvida por mais gente.

Paulo Darcie, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

A proposta de literalmente botar os pés no asfalto apareceu assim que o grupo - que como a maioria dos artistas em busca de espaço, se divulga quase exclusivamente via internet - percebeu um hiato entre o público que ela alcança e o que poderia alcançar.

"Vimos uma falha nessa lógica da internet. Por mais que muita gente tenha acesso a ela, a maioria ainda faz um uso muito superficial e não vai atrás de música", pondera Rafael, o cérebro por trás das letras, arranjos e vocais.

Por outro lado, o público hiperconectado, a seu ver, não chega a se tornar consumidor de uma banda. "Eles baixam 20 discos por dia e mal ouvem, não chegam até o fim, e não consomem mais nada que venha do artista. Poucos chegam a assistir a um show ao vivo, mas buscam no YouTube", diz.

A saída para alcançar o público pretendido foi voltar às origens: simplesmente se mostrar, aparecer para quem não está procurando e correr o risco de agradar. Inicialmente, foram 11 shows em locais públicos a céu aberto, agrupados sob o rótulo de Projeto Música Panorâmica em Lençóis Paulista, a 280 km da Capital, cidade base do trio. A banda planeja, agora, aproveitar a temporada de três apresentações em junho no clube Tapas, na Rua Augusta, que começou na última quarta-feira, e trazer o projeto para as ruas de São Paulo.

Ainda não há definição quanto aos "palcos" na capital. "Queremos tocar uma vez por semana, durante um mês. Pensamos na Avenida Paulista, ou outro lugar movimentado", revela Rafael, que canta e empunha a guitarra. "Estamos estudando o lugar e correndo atrás de autorizações, para não ter problemas por conta de barulho". Em São Paulo, ele e os Monumentais Filipe Franco (baixo) e William Bueno (bateria), negociam a participação de artistas gráficos fazendo projeções durante as apresentações.

Ao vivo o trio oferece essencialmente um rock que soa setentista e bem-humorado, mas longe de saudosista ou caricaturesco. "Minha inspiração vem de cantores. Gosto de caras como Jards Macalé, Jorge Mautner e Jack White", conta o líder da banda. As linhas de guitarra e baixo são bem trabalhadas, muitas vezes fugindo da lógica roqueira de refrões marcantes para acompanhar enredos dramáticos, repletos de personagens complexos, com "eus" ora confusos, como em 10% Cristão, ora angustiados e solitários, como em Polaroid, ou extremamente sinceros, como em Fobia Aguda de Pessoas que Batucam Mal, faixa que rendeu à banda o segundo lugar no prêmio Trama Virtual em 2008.

Já as gravações, Rafael, compositor compulsivo, faz sozinho, adicionando instrumentos como teclado, violão e viola caipira e tentando explorar mais "ritmos usurpados de diversas partes do mundo", como tango, samba e moda de viola. "É música, é popular, e é brasileira". Em seus primeiros esboços, em 2004, Rafael usava apenas um microfone ligado ao PC. "Continua sendo tudo feito em casa, com custo baixo. Aperfeiçoei algumas técnicas e a qualidade do resultado está melhorando."

As apresentações do projeto Música Panorâmica nas ruas de Lençóis tiveram apoio da prefeitura local. A estrutura simples deve se repetir em São Paulo: o gerador alimentava os amplificadores da guitarra e do baixo, além de dois outros, de baixa potência, para os vocais. A bateria não era amplificada. "Mas, se parar para pensar, o que é uma banda de rock perto do barulho da Paulista?", questiona o músico. Nada, também, de "passar o chapéu" durante os shows.

Rafael se diz satisfeito por ter conseguido a atenção de pessoas que o ouviram por acaso. "Tocamos em áreas centrais e em bairros. Os maiores públicos foram perto de escolas, e a molecada nos assistiu por um bom tempo depois das aulas. Nas praças dos bairros percebemos que muitos não sabiam como se comportar", diz, lembrando que o tempo de permanência das pessoas não costumava passar muito de uma ou duas músicas. "O pessoal estava no meio de seus afazeres, mas muitos vinham perguntar quando teria outro show", diz ele, satisfeito com o cumprimento da meta, de fazer contato direto com o público.

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