Mônica Bento/AE
Mônica Bento/AE

Banda atinge ápice de shows tecnológicos

Disposição do grupo é mostrar que, sob a pele sintética de sua gigantesca aranha mecânica, a humanidade persiste

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2011 | 00h00

É como se fosse uma Times Square portátil, com seu bombardeio de pixels e excessos, seu barroquismo que torna indistintos religião e publicidade, discurso amoroso e sermão de autoajuda. Não é por acaso que o U2 costuma entrar em cena tocando Even Better Than the Real Thing ("Ainda Melhor que o Lance de Verdade"). Ou seja: Bono, The Edge, Larry e Adam estão dizendo ao seu público que, sim, é possível enxertar alguma humanidade por debaixo da pele sintética de um robô Transformer de 50 metros de altura.

O formato e a disposição do palco aracnoide do U2 lembra a famosa obra de Louise Bourgeois (1911-2010). A diferença é que Louise examinava uma trama de sexualidade com sua obra (o MAC do Ibirapuera possui uma peça da artista, comparem). Bono se debruça sobre o extermínio do erotismo. As "flores" de acrílico postadas ao redor da bateria lembravam os artefatos do designer HR Giger (aquele que criou o visual do filme Alien). Um misto de medievalismo e futurismo. Não há linhas no horizonte, apenas curvas - ou formas bizarras arredondadas.

Obviamente, o design do palco é também obra de um empresário do show biz muito esperto, já que permite otimizar o uso de estádios, aumentando barbaramente suas capacidades. Fazia tempo que o Morumbi não recebia quase 100 mil pessoas numa única noite. E o público, como no maior parque de diversões do mundo, batia os pés e fazia as rampas de acesso ao estádio tremerem em êxtase.

Muita gente ainda fica correndo atrás do rabo com a história de identificar o nível de messianismo presente no palco do U2. Ora, os discursos de Bono apenas encobrem uma formidável disposição para encontrar essa simbiose de homem-máquina perfeita, um duelo que começou a ser travado com os Rolling Stones nos anos 1990 durante a turnê Bridges to Babylon (à qual o U2 respondeu com PopMart). Os Stones parecem ter abandonado essa corrida espacial, mas o U2 a sofistica indefinidamente.

"Ground control to Major Tom", repetia a voz de David Bowie na letra de Space Oddity, a senha para o U2 entrar caminhando no palco. A ideia base está ali: uma space opera que culmina com a apoteose de luzes de uma nave partindo, um final feliz ao estilo "ET Phone Home". Até a corrida espacial comparece: um vídeo mostrava o astronauta Frank de Winne, a bordo da Estação Espacial Internacional, recitando um poema.

Pela metade do show, o telão se desdobra e se abre como uma daquelas esferas de brinquedo de plástico que vendem na Rua 25 de Março, virando um véu visual em torno do grupo. Uma água-viva metálica que continua projetando enquanto se abre.

Impossível não passar pela cabeça a pergunta: como eles conseguem fazer um show desse atrás do outro? Como é possível repetir indefinidamente a caminhada pelo palco, a cabeça baixa cantando Miss Sarajevo, a atitude compungida, dolorida? Fingir sinceridade toda noite deve ter o seu preço. Mas que é convincente, lá isso é.

Afora isso, tem a questão do repertório e da performance da banda. Bono está cantando lindamente. Seu solo de garganta em Beautiful Day mostra que a voz continua tinindo, e The Edge não erra uma nota. Adam Clayton é responsável pela pulsação do show inteiro, é talvez o melhor baixista em atividade no pop rock há três décadas.

É quase uma tarefa matemática fazer uma seleção de hits de uma banda que só tem hits: I Will Follow, Mysterious Way, Elevation, I Still Haven"t Found What I"m Looking For, Where the Streets Have no Name. Há demagogia nisso? É claro, você só descobriu agora? Ao menos é uma demagogia bem fornida, bem abastecida. "Bahia! Paraná! Minas! São Pauloooo!", berrou Bono, para brincar com os ânimos regionalistas. O U2 começou o primeiro bis com One e fez um segundo bis com Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me e With or Without You, saindo após Moments of Surrender.

"Que noite!", exclamou Bono. Na saída da maratona e de sua aranha-catedral, era possível ouvir ainda os urros de satisfação da plateia. Ali fora do estádio, entre a normalidade dos camelôs e dos taxistas gananciosos, brilhava ainda o "ferrão" iluminado da aranha mecânica buscando o céu, como se fosse mais uma das chaminés de comunicação da Avenida Paulista. Esse sim foi o bug do milênio.

FRASES

Luiz Silva

Fã do Muse

"Vim mais para ver o palco do U2 do que pela música deles. Se fosse um jogo de futebol, nós já tínhamos apanhado" (por vestir camiseta estampada com o nome do Muse)

Índio da Costa

Ex-deputado

"O avião voltou ao Rio por causa de turbulência, mas a gente pegou outro. Não ia perder esse show, é omáximo do pop"

Clóvis Jr.

Outro fã do Muse

"Cá entre nós, a maioria desse pessoal que está aqui (no gravamado, nos camarotes VIPs) só veio por causa do oba-oba não por gostar de rock. Duvido que conheçam alguma música boa dos discos antigos do U2"

Três marmanjos

Fãs de cerveja

"Justin Bieber! Justin Bieber!" (gritando de zoeira antes da entrada do U2)

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