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Banalidade que diz o que somos

Leitor de Marcel Mauss, Georges Perec aplicou seu método para descrever casal que sonha ser rico em seu livro

SÉRGIO MEDEIROS,

14 de janeiro de 2012 | 03h00

O francês Georges Perec (1936-1982) tinha grande interesse em classificações. Era inevitável, portanto, que um belo dia se pusesse a classificar seus próprios livros, dividindo-os em diferentes categorias, sob a forma de exercício crítico escrupuloso, pelo menos na aparência. No volume póstumo Penser/ Classer (1985), o autor afirma que nunca escreveu dois livros iguais, pois não apreciava repetir uma fórmula, um sistema ou um procedimento já utilizado num livro anterior. Era, em suma, um autor sistematicamente versátil, que produziu textos tão diferentes entre si quanto La Disparition (ainda inédito em português) e A Vida - Modo de Usar (já publicado no Brasil pela Companhia das Letras), para citar dois dos mais importantes romances do autor, que mereceu em vida a reputação de ser um tipo de computador ou de máquina de produzir textos, conforme ele mesmo lembra em Notes sur ce que je cherche.

Numa leitura retrospectiva, Perec descobriu que essa produção tão variada (durante uma carreira curta publicou muitos títulos, alguns poucos já traduzidos para o português) podia ser agrupada em quatro campos diferentes, ou quatro modos de interrogação, como ele sugere: o sociológico, o autobiográfico, o lúdico e, finalmente, o romanesco, termo que traduz seu gosto por histórias e peripécias. O romance de estreia do autor, As Coisas, que sai agora em português numa tradução de Rosa Freire d’Aguiar, se encaixaria, segundo Perec, na primeira categoria, a de interrogação sociológica, embora, evidentemente, também tenha algo de biográfico, lúdico e romanesco. Leitor de Marcel Mauss, autor que lhe abriu os olhos para os "fatos banais" capazes de "descrever" o que somos, Perec buscou, em seus livros "sociológicos", sobretudo no de estreia, agraciado com o prêmio Renaudot, responder à seguinte indagação: como olhar o cotidiano?

Conforme revela o subtítulo de As Coisas - Uma História dos Anos Sessenta -, o leitor entrará em contato, nesse breve romance publicado por Perec aos 29 anos de idade, com o horizonte de desejos (para usar uma expressão sua) de um jovem casal de 1960, que não era rico, mas desejava sê-lo, Jérôme e Sylvie, ambos "psicossociólogos" que ganhavam a vida entrevistando pessoas sobre assuntos variados, numa época de expansão das análises motivacionais na França. Narrado em terceira pessoa, o romance não é, no entanto, a narração onisciente padrão, pois suprime radicalmente o diálogo, a reprodução direta da voz dos personagens. Ao expor ao leitor a imensidão dos desejos do casal (que é o de possuir o que veem na revista L’Express, por exemplo, que "lhes oferecia todos os signos do conforto"), Perec aposta na descrição escrupulosa, cinematográfica, objetiva. Essa meticulosidade descritiva dá o tom do relato, desde o início, um relato que exclui, curiosamente, a intensidade erótica, o desejo sexual: "A primeira porta abriria para um quarto, de piso revestido por um carpete claro..."

O narrador vasculha desejos ("O mundo, as coisas deveriam desde sempre lhes pertencer, e eles teriam multiplicado os sinais de possessão") e relações sociais ("Quase todos vinham da pequena burguesia, e seus valores, pensavam, não lhes bastava mais: olhavam com inveja, com desespero, para o conforto evidente, o luxo, a perfeição dos grandes burgueses"), adentrando num mundo nada ideal que "começava a desabar sob o amontoado dos objetos", daí a importância dos catálogos, das enumerações, de que se alimenta o estilo descritivo do jovem Perec. O pequeno mundo familiar do início dos anos 60, visto da perspectiva dos protagonistas, vai ganhando, página após página, novas nuanças, então o leitor descobre, nas corriqueiras "pesquisas de opinião", algo improvisadas e amadoras, perguntas de outra ordem sobre o regime do general De Gaulle, a Guerra da Argélia, os anos que vão de 1959 a 1962... Os protagonistas, porém, logo dão as costas ao engajamento político e continuam aplicando sem interrupção os costumeiros questionários de estudos motivacionais.

Os personagens pequeno-burgueses de As Coisas pertencem todos, como Jérôme e Sylvie, aos meios da publicidade e são cinéfilos. Consideram, e com razão, segundo o narrador, o filme O Ano Passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, "uma merda". No entanto, facilmente se verifica (é uma das grandes ironias do romance) que a mansão barroca desse filme está lá, escondida ou deformada, no pequeno apartamento parisiense dos protagonistas, e que os planos em movimento por corredores, usados por Resnais na sua obra-prima, menos a decoração magnífica, também abrem o delicioso romance de estreia de Perec: "O olhar, primeiro, deslizaria sobre o carpete cinza de um corredor comprido, alto e estreito..."

SÉRGIO MEDEIROS É ENSAÍSTA, TRADUTOR, E POETA. PUBLICOU, ENTRE OUTROS LIVROS FIGURANTES (ILUMINURAS, 2011). ENSINA LITERATURA E É EDITOR NA UFSC

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